segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Serviço doméstico


Carolina Maria de Jesus foi uma escritora mineira, descendente de escravos, que ganhou fama repentina nos anos de 1960, quando foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas. Trabalhou como catadora de papel, criou os filhos sozinha e relatou em seus escritos a dura realidade dos negros e favelados da cidade de São Paulo, onde morou. Seu livro “Quarto de Despejo” foi best seller internacional e a lançou ao sucesso. Morreu aos 62 anos, pobre e esquecida.

No livro “Diário de Bitita”, publicado após sua morte, Carolina descreve assim o trabalho doméstico do início do século passado: “ As mulheres pobres não tinham tempo disponível para cuidar dos seus lares. Às seis da manhã, deviam estar nas casas das patroas para acender o fogo e preparar a refeição matinal. [...] As empregadas eram obrigadas a cozinhar, lavar e passar. Deixavam o trabalho às onze da noite. [...] A comida que sobrava, elas podiam levar para suas casas. E nas suas casas, os seus filhos, que elas chamavam de negrinhos, ficavam acordados esperando mamãe chegar com a comida gostosa das casas ricas.
[...]
“Mas se a cozinheira tinha filha, pobre negrinha. O filho da patroa a utilizaria para o seu noviciado sexual. Meninas que ainda estavam pensando nas bonecas, nas cirandas e cirandinhas eram brutalizadas pelos filhos do senhor Pereira, Moreira, Oliveira e outros porqueiras que vieram do além-mar. [...] No fim de nove meses, a negrinha era mãe de um mulato. [...] Que luta para aquela mãe criar aquele filho!”

Pulemos para 2011. Segundo pesquisa do DIEESE, quase 45% das empregadas domésticas do país não tinham carteira assinada e 61% eram negras. Mais de 90% dos quase 7 milhões de trabalhadores domésticos eram mulheres, a imensa maioria com ensino fundamental incompleto.

O trabalho doméstico é digno como qualquer outro trabalho. Mas não podemos negar que a maioria das empregadas não escolhe a profissão e muitas suportam caladas os abusos que o caráter privado do ambiente doméstico esconde por medo de ser demitidas. Muitas dessas mulheres sustentam sozinhas os filhos. Portanto, não é possível comparar o serviço doméstico com outras profissões que trazem consigo direitos constituídos há tempos e não têm raízes escravocratas e patriarcais.

Não faz parte da cultura brasileira que os brancos de classes mais abastadas executem as tarefas domésticas. Com a oferta de mão-de-obra feminina, negra e barata, acostumamo-nos com empregadas que trabalham o dia inteiro e terminam a noite em quartinhos mal ventilados e apertados, longe dos filhos e de qualquer perspectiva de melhores condições de vida. Caladas, suportam todo tipo de humilhação dos patrões para não perder o emprego.

Essa é a realidade do serviço doméstico no Brasil, segundo estudiosos, pesquisadores e empregados. A famosa “PEC das domésticas”, que entrou em vigor este ano, trouxe avanços ao obrigar os empregadores a respeitar uma série de direitos das trabalhadoras. Contudo, não podemos esquecer em que bases históricas o serviço doméstico foi constituído. Com a regulamentação da profissão, esperamos que esse cenário mude. No entanto, para isso, também é preciso que nós, brancos das classes sociais mais favorecidas, reconheçamos e abdiquemos de alguns dos privilégios de que desfrutamos há séculos.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Desigualdade social e gravidez na adolescência


As meninas que engravidam na adolescência são, na maioria dos casos, pobres e têm menos escolaridade, segundo dados do IBGE.

O número de meninas adolescentes com filhos diminuiu na última década. Mesmo assim, continua alto. Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais 2015, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no último dia 4/12.

Em 2004, de cada mil mulheres de 15 a 19 anos, 78,8 tinham ao menos um filho, o que significava 18,4% da taxa de fecundidade total. Em 2014, esse número caiu para 60,5, representando 17,4% da taxa de fecundidade total. Portanto, de cada cinco partos, quase um é realizado em uma mãe adolescente.

Apesar da queda, o número de adolescentes com filhos no Brasil ainda é bem maior do que na Europa (16,2 por mil meninas) e nos EUA (28,3 por mil), mas próximo do nível observado na América Latina e Caribe (66,5 por mil) e mais baixo que o da África (98,5 por mil).

Entre as jovens dessa faixa etária que não tinham filhos em 2014, 40,4% residiam na região Sudeste e 56,3% se declaravam pretas ou pardas. A média de anos de estudo era de 8,9 anos; 73,7% ainda estudavam ; e 14,7% não estudavam nem trabalhavam.

Das meninas que tinham ao menos um filho, 35,8% moravam no Nordeste e 69% se declaravam pretas ou pardas. A média de escolaridade era de 7,7 anos (85% não completaram o ensino médio); somente 20,1 ainda estudavam; 59,7% não estudavam nem trabalhavam; e 92,5% cuidavam dos afazeres domésticos por uma média de 27,1 horas semanais.

A taxa de adolescentes com filhos mostra uma faceta conhecida dos brasileiros: a desigualdade social. Os dados revelam que a maioria das mães adolescentes tem poucos anos de escolaridade, é negra e vive nas regiões menos economicamente desenvolvidas do país.

São vários os fatores que levam as meninas a engravidar em uma fase da vida em que deveriam se preocupar com os estudos e em aproveitar a juventude. Muitas têm conhecimento acerca dos métodos contraceptivos, mas ignoram como utilizá-los corretamente. Assim, acabam usando o anticoncepcional de forma errada, o que torna sua eficácia reduzida.

Há regiões em que o acesso a esses métodos é precário. Nem todo posto de saúde oferece contraceptivos, entre eles a pílula do dia seguinte. Com acesso limitado, menos informações e a dificuldade comum às meninas muito novas em aderir a métodos que exigem regularidade de uso, a contracepção, muitas vezes, falha.

Essas adolescentes também têm baixa perspectiva em relação à escolaridade e à futura inserção no mercado de trabalho. Com isso, o papel social que lhes sobra é o de mãe.

Como fazer para essas adolescentes não terem filhos tão cedo e, com isso, traçarem um caminho que as afaste completamente da escola e de uma vida profissional com expectativas melhores?

Nossa sociedade conhece a resposta, embora não nos empenhemos em aplicá-la da mesma forma que fazemos com as meninas das classes mais favorecidas.

Em primeiro lugar, oferecemos às meninas mais ricas uma educação de melhor qualidade, que lhes permite criar expectativas em relação ao futuro. Assim, sonhos e planos como viajar, entrar em uma faculdade, conhecer outras culturas e pessoas, aprender novas habilidades e montar a própria casa antecedem o desejo da maternidade.

Quando essas meninas entram em idade fértil, conversamos com elas sobre sexo e as levamos ao ginecologista, que passa a acompanhá-las e orientá-las na escolha do melhor método anticoncepcional, a que certamente terão acesso.

Se os métodos por acaso falharem, pagamos-lhes o aborto em clínicas onde elas podem contar com médicos que lhes garantam segurança. Para as mulheres de classe social mais alta, a criminalização do aborto pode ser resolvida com dinheiro.

Elas não se sentem socialmente pressionadas a engravidar; suas amigas não têm filhos e a elas estão destinados vários papéis sociais que não os de mãe.

Com um ou mais filhos nos braços, as meninas de classes sociais mais baixas que mal saíram da infância não conseguem dar seguimento aos estudos, tampouco melhorar as condições de vida da família. Acabam destinadas ao serviço doméstico, sem que essa tenha sido necessariamente sua escolha.

Para as mulheres mais ricas, a maternidade é, na maioria das vezes, uma escolha e não um destino do qual não se pode fugir. Por que aceitamos condenar as mais pobres a uma realidade que evitamos para nossas filhas?

Todos deveriam ter direito de exercer sua sexualidade e decidir quando e quantos filhos desejam ter, e contar com o acesso a métodos que lhe assegurassem esse direito.

Uma sociedade que nega a garantia dos direitos reprodutivos a todas as mulheres em idade fértil, sem exceção, deveria no mínimo envergonhar-se.


*Texto originalmente publicado no site drauziovarella.com.br

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Estuprador nem sempre é doente

Na semana passada, chamou a atenção da mídia o caso do pai que detinha a guarda e estuprava sistematicamente as cinco filhas de 5 a 14 anos, no Amapá. Ao ser preso, ele disse: “Era rapidinho, não fazia nada não, era rapidinho”.

É difícil encontrar quem não se choque com essa história. Uma passada rápida pelos comentários dos mais importantes sites de notícia revela pelo menos duas posturas que chamam a atenção.

A maioria das pessoas quer que o pai estuprador sofra muito na cadeia, antes de morrer lenta e cruelmente. Chamam-no de “monstro”, “pedófilo” e “doente mental”. Outro grupo pergunta, raivoso, onde estava a mãe das crianças, que deixou a guarda de filhas mulheres com um homem, sem lembrar que esse “homem” é o pai das meninas, que devia protegê-las e tinha tanta responsabilidade no cuidado com as filhas quanto a mãe.

Essas duas atitudes falam muito sobre a cultura do estupro no Brasil. É comum chamarmos os estupradores de “monstros” e “doentes”. Se isso fosse verdade, então teríamos mais de 47 mil homens com problemas mentais apenas no ano de 2014, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isso sem contar os casos que não são denunciados.

Sabemos que os estupradores não são, em sua maioria, doentes mentais ou pedófilos, muito menos monstros. Se fossem, os estupros seriam raros, e o pai em questão não trataria as acusações com tanta naturalidade, como fazem muitos estupradores.

Obviamente, isso não significa dizer que qualquer homem se tornará estuprador, mas que parte deles considera o estupro algo aceitável. Muitos homens sentem prazer em dominar uma mulher, em submetê-la ao pavor, em vê-la imobilizada, sem ação.

A outra postura vista nos comentários, a que tenta responsabilizar a mãe das meninas, é nada mais, nada menos que a boa e velha tática de colocar a culpa na mulher. Como é muito pesado culpar crianças (acreditam, alguns o fizeram em comentários de embrulhar o estômago), acusam a mãe, que não estava presente (onde já se viu?).

Está mais do que na hora de reconhecermos que vivemos em uma cultura em que o estupro é condenável na teoria, mas incentivado e tolerado no dia a dia. Transformar os estupradores em monstros ou colocar a culpa na mulher não vai mudar essa realidade.

A imensa maioria dos estupradores não é composta por doentes mentais, muitos são inclusive conhecidos das vítimas. Devem ser presos, julgados e punidos de acordo com a lei. Eles são os culpados, eles são os criminosos. Não são monstros, não são doentes mentais: são homens comuns.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Meu amigo secreto


A campanha ‪#‎meuamigosecreto‬ surgiu, até onde sei, espontaneamente na internet. Não foi organizada nem tem autoria conhecida. Na linha da‪#‎primeiroassédio‬, esta, sim, criada com objetivo claro e definido pelo Think Olga, incentiva as mulheres a falar sobre atitudes machistas de amigos e conhecidos. Diferentemente da primeira, gerou muitas críticas. Listo aqui algumas considerações necessárias:


1) Por que a campanha é importante para as mulheres?
A internet trouxe algo valioso para as minorias, inimaginável tempos atrás: a possiblidade de se comunicar, de somar esforços e unir pessoas que passam pelos mesmos problemas mas que, de outro modo, nunca se encontrariam. Isso fortalece os indivíduos, os grupos e, consequentemente, a luta por direitos.
A campanha #meuamigosecreto é bacana porque as mulheres podem denunciar situações machistas pelas quais passam no dia a dia e conversar sobre elas, trocar informações, encontrar apoio entre si. Desse modo, elas se fortalecem. Também tem como mérito o fato de revelar como o machismo é intrínseco na nossa sociedade, como permeia o cotidiano e “contamina” as pessoas.


2) Não seria melhor se as mulheres dissessem para os próprios amigos que não gostaram de sua atitude em vez de insinuar e dar indiretas?
Sim, seria muito melhor se pudéssemos olhar na cara de cada amigo ou colega que perpetua atitudes machistas e ter uma boa conversa com ele. Acontece que isso nem sempre é possível. Muitas mulheres têm medo, e não sem razão. Outas sentem vergonha ou não sabem bem como agir. Os homens também quase nunca estão receptivos a ouvir (acreditem) e muitos reagem com agressividade. E o foco da campanha, pelo que entendo, é denunciar as atitudes exatamente sem personalizar, para mostrar como elas são comuns, na esperança de que quem as pratique possa refletir, reconhecê-las e evitá-las.


3) Muita mulher está usando a campanha para dar indiretas em amigos e ex-namorados e isso não ajuda em nada a luta por direitos.
Como toda campanha, esta também está sujeita a deturpações e não é perfeita, o que não a desvalida de forma nenhuma. Seu intuito é expor feridas, mostrar para outras mulheres que elas não estão sozinhas, revelar para a sociedade como muitas atitudes machistas são propagadas sem que pensemos nelas e como isso machuca, agride e ofende as mulheres. A ideia é revelar para mudar.


4) Por que esta campanha ofendeu mais os homens do que as outras?
Bom, tenho alguns palpites. Na ‪#‎primeiroassedio‬, que foi importantíssima, as mulheres acusaram o outro: o desconhecido na rua, o padrasto machista, o babaca com o qual muitos homens, principalmente mais jovens e que já cresceram sob a influência de muitas conquistas feministas, não se identificam. Esta campanha mostra que qualquer homem pode ser machista, justamente porque ele é estrutural e se revela até nas sutilezas.
Também acho que muitos não compreenderam bem o intuito e julgaram que o objetivo das mulheres é se vingar (se fosse, também seria compreensível), quando na verdade ela vale muito mais para nós, mulheres, do que para os homens. É muito importante para o feminismo que as mulheres se apoiem, identifiquem-se umas com as outras, encontrem-se e somem esforços.


5) Por fim...

É extremamente difícil nos reconhecer machistas (ou racistas ou homofóbicos ou seja lá o que for). É duro, principalmente se nos esforçamos para não ser. Mas é importante, também. É assim que avançaremos.
Sugiro que respeitem as campanhas e manifestações que ainda vão surgir, escutem, reflitam, pensem no motivo de elas existirem e, em última instância, incomodarem tanto.
Talvez um dia elas não sejam mais necessárias; quem sabe a sociedade mude a ponto de não precisarmos mais delas e desenvolva meios para que possamos denunciar atitudes machistas com segurança e efetividade. Por enquanto, as campanhas, gostemos ou não delas, vão continuar. Como dizemos por aí, não tem mais volta.

*Texto originalmente publicado na página "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O namorado não deixa

Ninguém tem dúvida de que levar um tapa na cara ou um soco no estômago é sinal de violência. É possível discordar se ela é merecida ou não, mas todo mundo sabe que esses são atos violentos.

No entanto, atitudes como dizer para a namorada vestir uma roupa mais comportada, usar menos maquiagem, cortar contato com determinado colega ou ainda deixar de se comportar de certa maneira são atos que muitos consideram sinal de “ciúme saudável”, como se isso existisse. Uma demonstração de amor, enfim.

Esse tipo de comportamento tem nome, e não é nada bonito: chama-se violência psicológica. Pode ser praticada por homens e mulheres, a diferença é que os primeiros costumam fugir de namoradas controladoras ou pelo menos dão um jeito de driblar a vigilância com mentiras e subterfúgios bem conhecidos de ambos os sexos. Já as mulheres... bem, muitas a aceitam como parte natural dos relacionamentos amorosos, porque aprenderam, com a ideia de amor romântico que lhes enfiaram na cabeça a vida toda, que controle é sinal de afeição, de cuidado, de querer bem.

Segundo pesquisa divulgada no ano passado pelo Instituto Avon e Data Popular e realizada com jovens de 14 a 24 anos, 56% das meninas já tiveram um parceiro que vasculhou seu celular atrás de supostas mensagens amorosas; 40% tiveram um companheiro que tentou controlá-la por meio de telefonemas; 37% praticaram relações sexuais sem preservativo por insistência dos parceiros; 33% já foram impedidas de usar determinada roupa pelos namorados.

É muito grave que meninas tão jovens já iniciem a vida amorosa e sexual assim, considerando normal demonstrações de controle e violência psicológica. Uma relação abusiva pode deixar marcas para sempre, além de estabelecer um padrão de relacionamento do qual é difícil escapar mais tarde.

Ninguém pode dizer ao outro como se vestir, aonde ir, de quem ser amigo, como se comportar. Ciúme não é saudável, é um sentimento que traz consequências horríveis para quem o sente e devastadoras para sua vítima, por isso deve ser combatido.

Isso não tem nada a ver com monogamia ou com a ausência dela. Cada um estabelece o tipo de relação que quiser, desde que encontre pessoas que concordem com seus termos. Tem a ver com respeito, com liberdade, com aceitação. Se você não gosta do jeito do seu parceiro ou parceira, afaste-se, mas não tente domá-lo(a). Simples.

Aprendemos que as pessoas podem e devem ser controladas. Isso, contudo, não é verdade. Como disse a filósofa Simone de Beauvoir, “querer-se livre é também querer livre os outros”. Ninguém é propriedade de ninguém, nem filhos, muito menos parceiros afetivos. Qualquer atitude que vise a controlar o outro é, sim, sinal de violência.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

domingo, 22 de novembro de 2015

Feminicídio


Em fevereiro de 2015, causou comoção na internet o caso do empresário que agrediu as cadelas da noiva, no Rio de Janeiro. O vídeo em que ele aparece maltratando os animais, filmado e divulgado pela dona dos bichos, foi rapidamente compartilhado por milhares de usuários das redes sociais, mobilizando, inclusive, a OAB.

Pouco mais de três meses depois, o mesmo empresário agrediu violentamente a agora ex-noiva, na porta de uma festa. Bastante machucada, a moça divulgou fotos e denunciou o rapaz à polícia.

Apesar dos dois fatos envolverem as mesmas vítimas, a violência contra a mulher não gerou um décimo da comoção da agressão aos animais.Embora triste, o fato não surpreende.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a cada uma hora e meia uma mulher morre por causas violentas no Brasil. São 472 por mês; 5.664 por ano. É bastante gente.

São mulheres estupradas, espancadas, agredidas e vítimas de maus-tratos que resultam em óbito, na maioria das vezes cometidos por companheiros ou ex-companheiros. Esse tipo de crime, em que pessoas morrem apenas por serem mulheres, tem nome: feminicídio.

Nem todos conseguem ver a relação entre o assassinato de mulheres por questões de gênero e machismo, mas ela existe. Afinal, permitimos o controle da vida e da sexualidade da mulher, adotando costumes e normas que vão desde a valorização da virgindade até a criminalização do aborto. Dizemos como as mulheres devem se vestir, que aparência devem ter, como devem se comportar.

Obviamente nem todos se sentem no direito de matar por causa disso.Mas todas as vezes em que a sociedade aceita abusos nas ruas, que maridos digam com quem a mulher deve se relacionar e pais criem filhas e filhos sob regras diferentes estamos passando uma mensagem muito clara: os homens têm poder sobre as mulheres.E se isso é verdade, acabamos aceitando, também, que alguns extrapolem e acabem“exagerando” na dose e cometendo abusos e crimes.

Sem querer parecer simplista nem desprezar outras variáveis que contribuem para essa violência, como racismo, baixa escolaridade, entre outras, é primordial uma mudança cultural no sentido de não tolerarmos mais que as mulheres assumam lugar secundário na sociedade. Mas isso leva tempo, e muitas não podem esperar.

Nesse sentido, medidas como a sanção da lei que define como crime hediondo a morte violenta por razões de gênero, a Lei do Feminicídio, contribuem para que se pense duas vezes antes de tirar a vida de uma mulher. É lamentável, mas precisamos de uma lei para isso.


*Texto originalmente publicado no site "Sobre nossa visão distorcida"

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Violência contra a mulher: negras são as principais vítimas


Até bem pouco tempo atrás, não havia nenhuma lei específica que protegesse as mulheres de agressões e crimes. Isso começou a mudar em 2006, quando entrou em vigor a Lei 13.340, conhecida como Lei Maria da Penha, que visa punir os casos de violência contra a mulher. Ainda mais recentemente, em março de 2015, foi promulgada a Lei 13.104 que passou a considerar crime hediondo os homicídios cometidos “por razões de condição de sexo feminino”, ou seja, os assassinatos perpetrados contra uma pessoa simplesmente por ela ter nascido mulher.

Mas será que essas leis de fato bastam para proteger as mulheres e evitar que ocorram novos casos de violência e homicídios?

De acordo com dados do recém-lançado Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil, não. De autoria do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, o mapa conta com o apoio de várias instituições, entre elas ONU – Mulheres e OPAS/OMS (Organização Pan-Americana da Saúde – Organização Mundial da Saúde). Vamos a alguns números:

  • Só em 2013, foram assassinadas 4.762 mulheres no território nacional, o que coloca o Brasil em quinto lugar entre os países com mais casos de homicídio feminino do mundo. Ficamos atrás apenas de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia; nossa taxa de homicídio feminino é 48 vezes maior que a do Reino Unido e 24 vezes maior que a da Irlanda ou da Dinamarca;

  • A taxa de homicídio entre as mulheres brancas caiu de 3,6 por 100 mil em 2003 para 3,2 em 2013, uma redução de 11,9%. Já entre as mulheres negras, houve um aumento de 4,5 para 5,4 por 100 mil no mesmo período, um crescimento de 19,5%;
  • Em 2013, foram assassinadas 66,7% mais negras do que brancas;
  • No que se refere aos feminicídios, há poucos dados disponíveis. No entanto, sabe-se que dos 4.762 homicídios realizados em 2013 cujas vitimas eram mulheres, 50,3% foram cometidos por familiares, o que dá uma média de 7 homicídios por dia;
  • Parceiros ou ex-parceiros foram autores de 33,2% desses assassinatos, ou seja, 4 vítimas por dia;
  • Dos adultos que procuraram o SUS em 2014 por intercorrências causadas por violência (doméstica, sexual e/ou outras), 71,3 por 10 mil eram mulheres, enquanto 28,6 por 10 mil eram homens. Entre os adolescentes atendidos, essa proporção foi ainda maior: 65,1 por 10 mil mulheres ante 34,9 por 10 mil homens;
  • Nesse ano, 405 mulheres sofreram violência por dia e precisaram ser atendidas pelo SUS;
  • No conjunto de todas as idades, 67,2% das agressões contra mulheres foram cometidas por parentes imediatos ou parceiros e ex-parceiros.



Esses e outros dados do mapa nos revelam aquilo que estudiosos das questões de gênero já sabem: a violência contra a mulher não é homogênea, distribui-se de forma não igualitária entre regiões, idades e raças.

Alguns estados, como Roraima e Espírito Santo, apresentam taxas muito mais elevadas do que outros. Os municípios com índices mais altos de assassinato de mulheres são os de pequeno porte, mais espalhados pelo interior do país.

É verdade que os homens são a maioria das vitimas de homicídio no Brasil. No entanto, a violência sofrida pelas mulheres assume uma peculiaridade macabra: é praticada na imensa maioria das vezes dentro de casa, em um ambiente que lhes deveria oferecer segurança, por parentes ou parceiros e ex-parceiros.

Com esses dados, podemos afirmar que as principais vítimas de feminicídios no Brasil têm rosto, e ele é negro e jovem. Seus algozes também são conhecidos, tanto pelas próprias mulheres quanto pela sociedade.

Se sabemos quem são as vítimas e os agressores, por que não conseguimos impedir que novos crimes ocorram? A resposta é simples, porém incômoda: porque achamos normal e, portanto, aceitável que homens disponham da vida e do corpo das mulheres como desejam. Não consideramos, apesar das leis, crime grave um marido agredir a esposa ou um pai bater na própria filha. Afinal, não costumamos dizer, por exemplo, “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”?

A violência contra a mulher é uma violação grave aos direitos humanos. Gera custos com saúde e despesas legais perfeitamente evitáveis, desestrutura famílias, traz consequências terríveis para quem a vivencia direta e indiretamente.

Há vários aspectos culturais que explicam a violência de gênero, que está enraizada na desigualdade estrutural que há entre homens e mulheres. Para evitá-la, é preciso que haja políticas eficientes para as mulheres, em especial as negras e pobres, e a aplicação das leis vigentes.

Supõe-se que menos de 7% dos homens que cometem violência grave contra a mulher sejam condenados. Cientes da impunidade e da omissão da sociedade, eles continuam a circular por aí, como se não fossem os criminosos que são.

*Texto originalmente publicado no site drauziovarella.com.br