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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Encontro

As mesas ocupadas e o barulho das conversas ao redor, principais motivos que a levaram a escolher aquele lugar, agora lhe pareciam insuportáveis.

Olhou o relógio. Chegara quinze minutos antes, como de costume. Tempo infindável que se impunha com toda sua crueldade e a impedia de raciocinar. Só conseguia concentrar-se no ambiente inóspito. De onde tirara a ideia de convidá-lo àquela lanchonete tão desagradável?

Quando ele se sentou à sua frente, em meio a sorrisos desconcertantes e comentários sobre o trânsito, ela entendeu por que propusera o local. Tudo que ela queria era evitar a intimidade, a fala pesada, seus olhos enchendo-se visivelmente de lágrimas que não pretendia derramar.

Que fosse ali, no meio de sacolas, de risos, de luzes brancas e cadeiras desconfortáveis.

Como era difícil encontrar as palavras! Quantas vezes já tentara explicar o que sentia, o que desejava, só para vê-lo desfazer-se com maestria da trama em que ambos se enredavam.

Por que ela marcara o encontro? O que mais havia a ser dito, explicado, proposto?

-- Você está bonita.

-- Ah, imagina, vim correndo do escritório.

-- Não se diminua. Agradeça e aceite, foi sincero.

Que mania de fazê-la sentir-se inadequada, como se vestisse uma calça que a deixava linda, mas a impedia de respirar. Ela sempre tentara compreendê-lo, entender seu amor distante, seu jeito de lembrá-la constantemente do seu autocontrole.

Era medo o que ele sentia? Desamor?

Logo ela, sempre tão intensa, tão verdadeira e espontânea, via-se ao mesmo tempo instigada e diminuta diante daquele homem que parecia ter domínio absoluto sobre todos os gestos, todas as palavras, todos os movimentos de aproximação e recuo que lhe eram tão familiares.

Foi então que ela olhou em seus olhos e percebeu que não havia o que desvendar nem procurar, estava a tudo ali, escancarado em seu riso narcísico.

E se deu conta de que demorara além do tempo, e que o nada, cujo sentido outrora lhe parecia tão alheado da realidade, enfim assumia uma configuração humana.

-- Você queria conversar?

-- Sim, mas antes preciso ir ao banheiro.

Assim que chegou à rua, arrependeu-se por um segundo e pensou em voltar, não era correto agir daquele modo. No entanto, a sensação de liberdade que a tomou em seguida a fez seguir em frente.

E ela, cuja inquietude habitual e o uso excessivo das palavras lhe afastavam do medo de uma vida inerte e covarde, agora se entregava à serenidade e partia sem ser notada, sem nada dizer.

Não era necessário: por fim compreendera que mudanças também são feitas de desistências silenciosas.

                                                     

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Denúncias de abuso e as redes sociais

Têm surgido na internet denúncias e desabafos de mulheres que se sentiram vítimas de relacionamentos abusivos. A reação a isso gerou controvérsia. Minha opinião a respeito:

1) Na nossa sociedade, os homens ainda detêm o poder em muitas esferas: econômica, social, política etc. Não é preciso muito esforço para entender que essa desigualdade se dá também na imensa maioria das relações amorosas heterossexuais, que acabam sendo palco de inúmeros abusos, alguns mais óbvios e violentos, outros mais sutis. Se isso é verdade, também é fato que temos poucos mecanismos para lidar com o problema, principalmente no que diz respeito às violências menos óbvias, que não são passíveis de penalizações legais.

Conheço algumas mulheres que escreveram sobre seus relacionamentos e muitas, muitas outras que viveram e vivem essas relações de poder dentro da esfera íntima. Por acompanhar muitos desses casos e por eu mesma ter vivido algumas situações em que o poder masculino se mostrou mais sutil, mas não menos devastador é que compreendo que cada mulher vítima de situações abusivas lida com isso a seu tempo, da forma que consegue.


Muitas mulheres e meninas estão se amparando nesses relatos, identificando padrões abusivos em seus próprios relacionamentos, encontrando outras mulheres em quem buscar ajuda. Isso é muito importante.

Não me sinto em condições de avaliar a forma como cada mulher lida com a questão e muito menos de dizer se seu relato é ou não legítimo. Não julgá-las é minha opção pessoal.

2) Para mim, o importante é como a sociedade vai lidar com as denúncias. Acho primordial entendermos que o machismo é um problema estrutural e macro e discuti-lo dentro desse contexto.

Vejam, não estou dizendo que perpetuadores de atitudes e comportamentos violentos não devam ser punidos, responsabilizados ou repreendidos, e compreendo que alguns tipos de intimidação de fato funcionam. 

No entanto, demonizar esses homens pode ter efeito contrário:  transformá-los em exceção mesmo sabendo que esses casos não são raros, tampouco isolados.

Portanto, creio que ganharíamos mais discutindo a questão do machismo nas relações íntimas como um problema estrutural que atinge, em graus muito diferentes, é bom salientar, quase todos os casais heterossexuais que conheço. 

3) Machismo é um problema que diz respeito aos homens. É importante que eles discutam masculinidades, que repreendam atitudes machistas em seus amigos e colegas, que entendam de uma vez por todas que são eles que devem mudar e assumir uma postura ativa nesse sentido. Acredito mesmo que boa parte dos homens esteja disposta a mudar e que isso seja possível, mas a mudança não está nas mãos das mulheres, ela não é tarefa nossa. 

4) Por fim, é preciso cuidado com a falsa simetria. Você pode até questionar se é legal ou não esculachar alguém na internet (pessoalmente, prefiro outras formas de atuação), mas isso não é “linchamento”. Comparar as mulheres e meninas que xingam na internet a linchadores é no mínimo injusto.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Homens e a mania dos nudes sem consentimento

Imagine que você tenha acabado de acordar e de tomar café da manhã e esteja aproveitando os únicos minutos de folga que terá no dia para dar uma olhada nas mensagens do Facebook. De repente, percebe que recebeu uma mensagem de um desconhecido. Mais curiosa do que receosa, clica nela. Então, eis que surge em sua tela do computador um pênis ereto com a legenda “Oi, gata, vamos conversar?”.

Agora suponha que você esteja solteira há algum tempo e tenha cedido aos convites de amigos para entrar no Tinder, aplicativo que facilita encontros entre as pessoas. Você não curte muito a ideia, até ‘conhecer’ um rapaz que lhe parece interessante. Vocês trocam mensagens cujo conteúdo parece saído de uma festa de adolescentes: um gracejo sem jeito aqui, uma pergunta sobre a profissão acolá. Despedem-se sem grande entusiasmo. Dois dias depois, ei-la: a foto do pinto. Sem aviso prévio, sem pedido, sem intimidade que possa ter tornado possível a ousadia.

Essas duas histórias aconteceram com amigas minhas, mas são inúmeros os casos de mulheres que reclamam de homens, a maioria estranhos ou apenas conhecidos, que mandam fotos de pênis sem a menor cerimônia. É tão frequente que já virou piada entre as mulheres.

Sempre me surpreendi com a admiração e o orgulho que os homens sentem pelo seu órgão sexual. É uma verdadeira adoração, quase um culto, a ponto de não se constrangerem ao mandar fotos do dito-cujo a desconhecidas que nunca sequer lhe dirigiram a palavra. Tem que ter muita autoconfiança, né?

Desconfio, inclusive, que Freud tenha criado sua teoria sobre a inveja que as mulheres teriam do pênis ao receber uma bronca de uma senhora que não gostou de ver o órgão do médico aparecer sem ser convidado, fazendo o famoso psicanalista pensar: "Ah, não curtiu ver um pinto surgir aleatoriamente na sua frente? Isso porque as mulheres são recalcadas, têm inveja do nosso membro forte e viril!"

Brincadeiras à parte, assim como conheço inúmeras mulheres que recebem essas fotos, não sei de uma sequer que ache isso legal. Porque, sim, algumas de nós (surpresa: não todas!) gostam de pinto, mas do cara de quem elas estão a fim ou pelo menos têm algum interesse sexual. Mandar fotos íntimas tem a ver com aquela palavrinha mágica que muitos homens fazem questão de ignorar: consentimento.

Não consigo deixar de pensar no intuito da foto. Por acaso esses homens acham que alguma mulher vai olhar para ela e dizer: “Ah, que pinto lindo, vou convidar o dono para sair”? Se a estratégia dá certo, desconheço. De todo jeito, posso afirmar que nunca a vi funcionar.

Acredito que certos homens façam isso para afirmar poder. Usam o falo para intimidar, para mostrar que dominam, não para atrair. Além de exibir um enorme desconhecimento da sexualidade humana, que envolve muito mais do que órgãos sexuais, eles parecem dizer: “Vejam como sou viril, macho e poderoso, tenho pinto!”.

Se as mulheres fossem vingativas, exporiam esses homens na internet. Talvez fosse o único modo de constranger os rapazes e impedi-los de continuar a nos incomodar. Por outro lado, era capaz de eles gostarem e começarem a mandar mais fotos. Não sei.

Então, peço encarecidamente: guardem o pau para momentos de intimidade ou pelo menos deixe para exibi-lo quando lhe solicitarem. Por mais orgulho que você tenha dele, ninguém quer começar o dia com sua afirmação de macheza e poder em forma de falo. Quando quisermos, a gente avisa.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Homens e o debate sobre igualdade de gênero

Acho importante atrair os homens para o debate sobre igualdade de gênero e direitos da mulher, ainda mais se pensarmos que são eles que ainda detêm os principais cargos de poder.

E, sim, vejo muitos interessados em debater, em escutar nossas demandas, principalmente os mais jovens.

Uma crítica comum que os homens fazem ao movimento feminista é que não os deixamos opinar e os colocamos logo de cara sob suspeita, como inimigos.

Eu convido os homens que reclamam a inverter o jogo e, em vez de acusar, se perguntar: por que será que isso acontece? Será que as feministas são todas radicais que odeiam os homens e querem combatê-los? Será que o feminismo é sobre homens?

O que ocorre, caros, é que a maioria dos homens age com desonestidade ao falar de feminismo. Não escuta, não se informa, pega trechos de discursos fora de contexto ou unifica o movimento em uma caixa que lhes convém.

E isso irrita porque nos desqualifica, nos resume a um bando de malucas radicais que só querem xingar homem.

Antes de falar sobre qualquer coisa, é preciso saber sobre o que se fala, ter humildade para escutar, estudar, pesquisar.

Ou os homens baixam um pouco a bola (sei que é difícil para quem sempre foi reconhecido como certo) ou não vai haver diálogo. Infelizmente.


*Texto originalmente publicado no site "Casa da Mãe Joanna"

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Amores e montanhas

Que não existe só uma maneira de se relacionar afetivamente, acho que a maioria das pessoas, principalmente as mais jovens, concorda. Os seres humanos são diversos, assim como seus desejos e sentimentos. Pensar que há apenas um modelo que dê conta de todo mundo é, no mínimo, muita inocência.

Foi-se o tempo em que somente a relação heternormativa e monogâmica era a única possibilidade. Hoje as opções, ainda bem, são mais amplas. Existem muitos modelos de relacionamento possíveis, e cada um pode escolher como e com quem quer se relacionar amorosamente. No entanto, essa liberdade de escolha não é, de fato, uma possibilidade real para todas as mulheres.

Educadas e ensinadas a acreditar no amor romântico e a esperar mais dos homens do que de si mesmas, as que percebem que estão embarcando em uma furada ao buscar um relacionamento amoroso que satisfaça todas suas necessidades vivem um dilema: como ir contra tudo aquilo que a sociedade espera delas sem as ferramentas necessárias?

É como se de repente dissessem a um grupo de crianças: “Olha, vocês não precisam brincar só de casinha, podem escalar montanhas também, só que não vamos lhes dar o equipamento e o treino necessários”. A maioria vai preferir a velha casinha, que embora não seja lá essas coisas, pelo menos é segura e conhecida; as que se aventurarem na montanha provavelmente vão se machucar feio.

Para se relacionar com o outro em pé de igualdade, é preciso admitir seus limites, seus desejos, suas expectativas. É necessário, acima de tudo, aceitar-se e respeitar-se, conhecer, gostar e confiar em si, e isso não ensinam às mulheres. Ao contrário, ensinam-nos a buscar a felicidade no outro: no parceiro ideal, no marido perfeito, nos filhos que virão, na família a quem deveremos dedicar a vida.

As diversas possibilidades hoje disponíveis, sem os meios necessários para vivê-las em sua plenitude, tornam-se, portanto, uma armadilha perigosa.

O resultado é que muitas mulheres continuam à mercê dos parceiros, mesmo que vivenciando modelos de relacionamento diferentes. São eles que dão o tom. Porque o problema não está nos modelos, apenas, mas no fato de que às mulheres não são dadas as oportunidades de desenvolver e expressar seus desejos.

A verdadeira liberdade não consiste apenas em oferecer possibilidades, mas em fornecer ferramentas para que todos e todas tenham condições de dela desfrutar. Qualquer coisa fora disso é migalha, um arremedo de liberdade. E uma cilada para os incautos.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 1 de março de 2016

Mulher cuida, homem ajuda

Quando um homem e uma mulher decidem se casar, pressupõe-se que os cuidados com a casa se multiplicarão, principalmente se eles decidirem ter filhos. Afinal, haverá mais roupa para lavar, comida para preparar, compras de supermercado, faxina, uma infinidade de tarefas que tendem a aumentar à medida que o número de habitantes que convivem sob o mesmo teto cresce.

Como os afazeres domésticos no mínimo dobram, seria óbvio que a carga de trabalho aumentasse para ambos, certo? Errado. Segundo a pesquisa PNAD realizada pelo IBGE (2014), os homens solteiros e com filhos gastam mais tempo com os afazeres domésticos do que os homens casados e com filhos, ao passo que as mulheres casadas passam muito mais tempo cuidando da casa do que as solteiras e com filhos.

Uma mulher solteira que tenha filhos gasta cerca de 22 horas semanais com as tarefas domésticas. A mesma mulher com filhos mas casada despende quase 30 horas por semana com esses afazeres. Ou seja, a mulher cujo parceiro vive na mesma casa que ela trabalha mais, embora haja um homem adulto ao seu lado que teoricamente poderia dividir a carga de trabalho. Grosso modo, isso significa que boa parte dos homens que se casam passa a contar com uma empregada doméstica em tempo integral que assume sua parte na divisão das tarefas do lar: a própria esposa.

O resultado do acúmulo de funções é bastante conhecido. As mulheres assumem jornadas duplas de trabalho, fora e dentro de casa, enquanto os homens podem se dedicar com mais afinco à profissão e a atividades que não estejam relacionadas à família.

Essa visão é bastante diferente da ideia de amor romântico, em que a mulher é salva pelo príncipe encantado, que ouvimos desde crianças. Na verdade, o casamento é, para boa parte das mulheres, uma prisão em que se acumulam cobranças, funções e infelicidade. Tendo de dedicar horas do que seria seu tempo livre a tarefas domésticas e aos cuidados com os filhos, sobra muito pouco tempo para a mulher cuidar de si, da sua saúde, projetos e sonhos.

Então pergunto: quando é que os homens vão deixar de achar que os afazeres domésticos e principalmente os cuidados diários com os filhos são tarefas que cabem à mulher e começar de fato a dividir o trabalho doméstico? E quando as mulheres vão parar de acreditar que essas são atribuições exclusivamente delas? Que tipo de adultos criaremos ao passarmos a nossos filhos a mensagem de que a mulher deve se desgastar em tarefas domésticas intermináveis enquanto as crianças e marido são preservados?

Não tenho essas respostas, mas sou otimista. Acho mesmo que as mulheres mais jovens estão fartas de viver relacionamentos que mais se assemelham a prisões e exigindo mais parceria de seus companheiros. No entanto, as relações ainda são bastante desiguais. O resultado disso são crianças e adultos mimados, criados por mulheres cansadas que não se poupam para servir e agradar sua família, mesmo que ela se assemelhe, muitas vezes, a um carrasco.


*Texto originalmente publicado na página "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O namorado não deixa

Ninguém tem dúvida de que levar um tapa na cara ou um soco no estômago é sinal de violência. É possível discordar se ela é merecida ou não, mas todo mundo sabe que esses são atos violentos.

No entanto, atitudes como dizer para a namorada vestir uma roupa mais comportada, usar menos maquiagem, cortar contato com determinado colega ou ainda deixar de se comportar de certa maneira são atos que muitos consideram sinal de “ciúme saudável”, como se isso existisse. Uma demonstração de amor, enfim.

Esse tipo de comportamento tem nome, e não é nada bonito: chama-se violência psicológica. Pode ser praticada por homens e mulheres, a diferença é que os primeiros costumam fugir de namoradas controladoras ou pelo menos dão um jeito de driblar a vigilância com mentiras e subterfúgios bem conhecidos de ambos os sexos. Já as mulheres... bem, muitas a aceitam como parte natural dos relacionamentos amorosos, porque aprenderam, com a ideia de amor romântico que lhes enfiaram na cabeça a vida toda, que controle é sinal de afeição, de cuidado, de querer bem.

Segundo pesquisa divulgada no ano passado pelo Instituto Avon e Data Popular e realizada com jovens de 14 a 24 anos, 56% das meninas já tiveram um parceiro que vasculhou seu celular atrás de supostas mensagens amorosas; 40% tiveram um companheiro que tentou controlá-la por meio de telefonemas; 37% praticaram relações sexuais sem preservativo por insistência dos parceiros; 33% já foram impedidas de usar determinada roupa pelos namorados.

É muito grave que meninas tão jovens já iniciem a vida amorosa e sexual assim, considerando normal demonstrações de controle e violência psicológica. Uma relação abusiva pode deixar marcas para sempre, além de estabelecer um padrão de relacionamento do qual é difícil escapar mais tarde.

Ninguém pode dizer ao outro como se vestir, aonde ir, de quem ser amigo, como se comportar. Ciúme não é saudável, é um sentimento que traz consequências horríveis para quem o sente e devastadoras para sua vítima, por isso deve ser combatido.

Isso não tem nada a ver com monogamia ou com a ausência dela. Cada um estabelece o tipo de relação que quiser, desde que encontre pessoas que concordem com seus termos. Tem a ver com respeito, com liberdade, com aceitação. Se você não gosta do jeito do seu parceiro ou parceira, afaste-se, mas não tente domá-lo(a). Simples.

Aprendemos que as pessoas podem e devem ser controladas. Isso, contudo, não é verdade. Como disse a filósofa Simone de Beauvoir, “querer-se livre é também querer livre os outros”. Ninguém é propriedade de ninguém, nem filhos, muito menos parceiros afetivos. Qualquer atitude que vise a controlar o outro é, sim, sinal de violência.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

sábado, 7 de novembro de 2015

Meninas e meninos

Esta semana, foi lançada a iniciativa #AgoraÉQueSãoElas, cuja ideia principal é abrir espaço e dar voz às mulheres que, em geral, não têm esse privilégio.


Pensando nisso, abro espaço para minha filha de 11 anos, que desde pequena já sente o peso de ser mulher em uma sociedade machista. Com vocês, o olhar da Manoela.

                                       **



Outro dia, sai com algumas amigas e encontramos um dos meninos com quem nunca nos demos bem, pois ele sempre nos tratou mal. Ele quis passear com a gente. Estávamos andando e começamos a conversar e eu fui percebendo que, separado do grupo de meninos com que ele sempre anda, ele era legal.

Esse grupo de que falei sempre desrespeita as meninas, faz piadas com a aparência delas, fica cochichando sobre qual menina tem o corpo mais bonito e desencoraja as meninas, dizendo que elas não conseguem fazer as mesmas coisas que os meninos, como praticar esportes, que meninas só sabem fazer compras e as que não fazem, são quase consideradas meninos.

Por que os meninos fazem isso? Por que eles têm que se mostrar superiores às meninas? Em que eles se espelham para fazer essas coisas desde já?

Para mim, parece que os meninos fazem isso porque se espelham na sociedade que ensina essa ideia para eles, de que os homens são superiores às mulheres. Essa atitude é ruim porque separa os homens das mulheres desde a infância, e acaba fazendo com que algumas meninas acreditem no que eles falam.

Minha opinião é que para isso melhorar, os adultos têm que parar de mostrar essa ideia para as crianças, e dizer a eles que tanto homens quanto mulheres têm as mesmas capacidades.


Manoela Varella Peixoto

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Tamos juntas!

Passei a adolescência e parte da vida adulta tendo mais amigos homens do que mulheres. Achava-os muito mais legais, mais divertidos, mais livres. As mulheres, por sua vez, eram fofoqueiras, competitivas, fúteis, cheias de regras sobre o que fazer, sobre como se comportar.

Eu me sentia muito bem cercada pelos meninos, só era preciso relevar os comentários sexistas que surgiam de vez em quando. Não queria falar sobre assuntos “de menina”: homens, namoros, roupas, filhos futuros que eu nem sabia se teria, dietas, sobre como fulana era gorda ou como a menina da classe ao lado não se dava ao respeito e transava com todo mundo. Com os meninos, conversava sobre política, sobre viagens, sobre baladas, sobre o mundo. Eles eram livres, as meninas não, e eu queria ser livre. Simples assim.

Na verdade, eu não percebia que passava o tempo todo querendo agradar e ser aceita pelos meninos. E não enxergava o quanto era ofensivo quando me diziam que eu era diferente, que era liberal, que nem parecia menina. Eu simplesmente não falava sobre questões que eram importantes para mim, mas que não tinha condições de compartilhar com os meninos porque eles não passavam pelo que eu passava. Em resumo, para ser aceita como a menina gente boa da galera, eu anulava minhas próprias vivências.

Com o tempo, fui percebendo como é perversa a ideia de que as mulheres são superficiais, competitivas, de que a amizade entre elas nunca pode ser autêntica. Na verdade, aprendemos a competir, a nos ver como inimigas, a nos julgar porque acreditamos na rede de comportamentos, deveres e condutas que a sociedade tece e nos impõe para que sejamos aceitas e cumpramos o papel secundário que nos foi designado. As que têm a ousadia de se negar a isso são julgadas por todos, inclusive pelas próprias mulheres. As que elevam a voz contra a sociedade, são taxadas de loucas, neuróticas, histéricas, qualquer ofensa que vise silenciá-las e desacreditá-las.

Passei as últimas semanas acompanhando minha filha no hospital. Vivi momentos de terror. E fui amparada por uma rede de mulheres incríveis: parentes, amigas íntimas e outras nem tanto, enfermeiras, médicas, mães, pessoas que nem sequer conhecia. Foi lindo ver como as mulheres podem ser fortes juntas, como somos maravilhosas quando nos despojamos do preconceito e do ódio que nos ensinaram a sentir umas pelas outras, quando compartilhamos experiências, dores e sorrisos.

Continuo amiga dos homens. Tenho amigos extraordinários. Mas não tento mais ser como eles nem agradá-los. Sou mulher, vivo questões que não lhes dizem respeito e minha história não se aproxima nem de longe da deles.

Pelos homens do meu círculo de amizade sinto carinho, respeito, admiração, amor. Mas são as mulheres que dividem comigo as vivências de uma sociedade patriarcal que tolhe nossa liberdade, que nos nega direitos, que tenta nos impor modelos de conduta que não nos cabem, que sabem, em suma, onde aperta nosso sapato. É com elas que me identifico, é a elas que ofereço meu olhar mais compassivo, aquele que diz, mesmo em silêncio, “tamos juntas”.

*Texto originalmente publicado na página "Quebrando o Tabu"

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Princesinha do papai

"Meu pai não me deixava chegar tarde nem trazer namorado para dormir em casa. Meu irmão podia fazer todas essas coisas, eu não. Mas fora isso, ele é o máximo.” Assim definiu seu progenitor uma grande amiga minha. Imagino que seu pai seja mesmo um cara legal, embora tenha deixado uma marca indelével na vida dela: sua criação fez com que acreditasse, mesmo sem ter consciência disso e por muitos anos, que é aceitável que homens e mulheres sejam tratados com direitos e moral diferentes. Pior: que eles têm valores distintos.

Nossa visão de mundo é influenciada por vários fatores, experiências e pessoas. Aprendemos com o que lemos, ouvimos e vivemos, com aqueles com quem cruzamos no caminho, com as reflexões que fazemos. O modo como enxergamos o mundo está em constante formação e, por isso mesmo, pode mudar.

Contudo, há algo que, depois de constituído, dá um trabalhão danado alterar: a forma como nos vemos, nossa autoimagem. As experiências das várias etapas da vida, incluindo infância e adolescência, são essenciais para o contorno da imagem que teremos de nós, que se reflete na maneira como nos colocamos no mundo e na nossa autoestima. Na fase de formação, o pai tem papel extremamente importante.

Um pai machista faz um belo estrago na vida de uma menina. Ele é a primeira referência masculina para a filha, e suas opiniões e o modo como enxerga o mundo e trata as pessoas são primordiais na constituição da sua visão de mundo e de si mesma.

Se ele a faz acreditar que ela não tem o direito de fazer escolhas e que elas não são boas o bastante para serem respeitadas, ela provavelmente vai acabar acreditando. Algumas conseguem, depois de muito empenho e dedicação, mudar a autoimagem negativa que fazem de si mesmas, mas muitas mulheres creem que de fato seus desejos e escolhas valem menos do que os dos outros, em especial dos homens. E que elas merecem pouco da vida, muito pouco.

O pai consciente de sua tarefa é aquele que entende que sua obrigação é fornecer ferramentas (aí também estão incluídos limites e regras, obviamente) para que a filha cresça se sabendo amada e amparada, mas segura e apta para fazer valer suas escolhas. Esse cara, antes de tudo, respeita e acredita na mulher que a filha é e sabe a importância que isso tem na formação da sua autoestima. Ele a ajuda a ser e a acreditar que é capaz.

Se seu pai trata você e seu irmão ou outros homens com regras, moral e direitos diferentes, não permite que você faça certas coisas não porque discorda delas, mas porque você é mulher, desculpe, mas seu pai não é o máximo. Ele é machista. Você vai querer para pai da sua filha um cara assim?


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Amor não machuca


"Em briga da marido e mulher, não se mete a colher.” Poucos ditos populares me causam mais repulsa. Porque ele justifica e legitima os milhares de casos de violência como os de Juliana Paiva Martins, assassinada aos 25 anos pelo namorado em um shopping de Aparecida de Goiânia, em Goiás. O delegado da cidade considerou o crime “passional”, que, por definição, é o homicídio que se comete por paixão. 

Não vejo paixão nem amor em um crime desses; vejo, isso sim, sentimento de posse e de superioridade e menosprezo pela vontade e autonomia da mulher. O crime, tão comum no Brasil, foi mais um caso de feminicídio, quando o motivo do homicídio ocorre em razão de gênero. Juliana, assim como tantas outras, morreu porque era mulher.

Entretanto, nem todo caso de violência contra a mulher acaba em homicídio. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Avon em parceria com o Data Popular (2014), três em cada cinco mulheres jovens já sofreram alguma forma de agressão em relacionamentos afetivos. A mesma pesquisa revelou que 56% dos homens admitiram ter xingado, batido, empurrado ou obrigado a parceira a fazer sexo. É muita gente.

O que leva alguns homens a cometer atos de violência contra quem supostamente amam ou já amaram, com quem compartilharam alegrias, sorrisos e tristezas? Não consigo pensar em nada além do fato de que eles consideram a parceira parte de sua propriedade, de que podem dispor conforme sua vontade e desejos. 

Embora casos extremos possam chocar, aprendemos a tolerar pequenas violências cometidas em relacionamentos abusivos. É comum vermos mulheres que dizem não aceitar violência física, mas que aturam, muitas vezes, que os parceiros digam-lhes o que vestir, com quem conversar, aonde ir. A maioria não se dá conta de que, desse modo, está sendo vítima de abuso.

Qualquer imposição que viole a liberdade de outra pessoa é uma forma de violência. Ninguém tem o direito de lhe dizer o que pensar, como agir, comportar-se. 

Talvez quando aprendermos a respeitar o fato de que somos seres autônomos e que, portanto, nossas ações sobre o outro devem ter limites, os casos de violência doméstica diminuam, e as milhares de Julianas não mais paguem com a vida apenas por terem nascido mulher.

* Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Amor romântico


A sociedade nos ensina que a felicidade suprema reside em encontrar um par amoroso a quem devemos amar incondicionalmente, por toda a eternidade. Essa pessoa, de preferência do sexo oposto, nos trará a plenitude e tudo passará a fazer sentido, prometem. E nós acreditamos.

A ideia de amor romântico, que nos faz crer que a salvação está no outro, traz, antes de tudo, frustração, pois aprendemos na marra e à custa de muita decepção que ninguém pode suprir todas as nossas necessidades e nos trazer realização.

Sua maior vítima somos nós, mulheres, que desde a infância somos bombardeadas por histórias de princesas apaixonadas e de moças que se mantiveram virgens para seus amados, pela indústria do casamento, que nos vende sonhos personificados em vestidos de noiva, por exemplos e mais exemplos de mulheres que aguardam, entediadas, pelo grande amor.

Só que nem toda mulher busca o amor romântico como forma de realização pessoal. Aliás, um número cada vez maior de mulheres abomina a ideia de depositar a responsabilidade por seu desejo, sonhos e felicidade na mão de outra pessoa que não seja ela mesma. Porque a verdade é que os encontros amorosos podem ser incríveis, mas o outro não nos realiza, não nos define, não nos basta. Afinal, a vida nos reserva mais do que uma história de amor perfeita; ela guarda em si e antes de tudo uma imensidão de possibilidades.

*Texto publicado originalmente na página "Quebrando o Tabu"

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Falta de libido


A noite chegou, você terminou todos seus afazeres, as crianças dormem tranquilamente e ao seu lado está o homem que você ama, cheio de desejo. Porém, a única coisa que você consegue pensar é em virar para o lado e dormir.

Quem já passou por isso precisa saber que não está sozinha. Pesquisa divulgada no ano passado pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo por meio do Cresex (Centro de Referência e Especialização em Sexologia) do Hospital Pérola Byington revela que 48,5% das mulheres que procuram ajuda médica por conta de disfunções sexuais sofrem de falta ou diminuição do desejo sexual, dor durante as relações sexuais ou dificuldade para atingir o orgasmo. A pesquisa com 455 mulheres também mostrou que apenas 13% dos casos têm origem orgânica, a imensa minoria, portanto.

Descontados os problemas físicos que podem levar às disfunções sexuais, podemos pensar em alguns aspectos socioculturais que afetam a sexualidade feminina.

Em primeiro lugar, precisamos considerar que as meninas aprendem a repreender a sexualidade desde pequenas. Enquanto aceitamos e até incentivamos a masturbação e a curiosidade sexual masculina, ensinamos as meninas a se resguardar, a não expressar sua sexualidade. Elas, portanto, se tornam mulheres que desconhecem o próprio corpo e todo o prazer que ele pode lhes proporcionar.

Depois que cresce, a mulher é incentivada a se casar e procriar. Dentro da família assume, na maioria das vezes, o papel de cuidadora, responsável pelo bem-estar de todos. Exatamente como nossas avós, com a diferença que muitas ainda têm de trabalhar fora.

A mulher, cansada, passa a enxergar o parceiro que costumava atrai-la tempos atrás como parte das suas obrigações. Uma visão nada sexual.

Os homens também em geral têm pouca paciência e habilidade para despertar o prazer feminino. Muitas vezes parecem esquecer que a relação sexual envolve, nesse caso, duas pessoas e que uma é bem diferente deles.

As revistas e programas femininos só aumentam a sensação de culpa ao dizerem que é preciso ser criativa para “apimentar” a relação. Como se para ser criativo não fosse preciso sentir desejo sexual e não vice-versa.

Como abrir espaço para o desejo? Antes de tudo, é preciso se livrar da culpa e sentir-se merecedora do prazer sexual. É necessário dissociar a relação conjugal da vida cotidiana, tentar ver o homem como parceiro de fato na busca pelo que lhe agrada e, se preciso, buscar ajuda profissional.

Assumir toda a responsabilidade por uma vida sexual pouco satisfatória é supor, erroneamente, que o sexo é algo dissociado das outras áreas da vida.

*Texto orginalmente publicado no www.drauziovarella.com.br

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Ciúme para quê?

Ah, um pouco de ciúme faz bem à relação, mostra que o parceiro nos ama. Quem nunca ouviu ou pensou que ciúme é sinal de amor? Acontece que isso não é verdade.

Ciúme nada tem a ver com amor, embora possa fazer parte dele. Faz mal, sempre, em qualquer quantidade. Para quem o sente, para seu objeto, para o relacionamento. Sentimento primitivo e incentivado pela sociedade, tão nocivo quanto o ódio. Porque implica posse.

Vejamos: não posso sentir ciúme de algo que não tenho. Posso desejar, cobiçar, invejar, mas não é possível ter ciúme daquilo que não é meu.

E ninguém é dono de ninguém, mesmo que pense o contrário. Nem de namorado, marido, mulher, nem de filho. Somos todos livres e devemos dispor da nossa liberdade; abrir mão dela é, além de perigoso, uma ação pouco corajosa, covarde, até.

Sem falar nas atrocidades cometidas e perdoadas em nome do ciúme. Quanta energia desperdiçada, quanto tempo perdido para tentar o impossível: controlar o outro.

Se nos entendermos, a nós e aos que fazem parte da nossa vida como seres livres, o esforço vão de tentar manter o outro sob nossa mira constante se torna desnecessário. E mesmo que sintamos medo de perder a pessoa amada, no fundo sabemos que o ciúme é destrutivo, responsável por aflorar o pior lado do ser humano.

É claro que não é fácil imaginar o ser amado nos braços de alguém, talvez, até mais interessante. Então sabe o quê? Não imagine. Não pense nisso. Não leva a nada.

Indivíduos livres ficam quando e onde querem, pelo tempo que querem, na companhia de quem desejam. Não é possível manipular o desejo alheio, pelo menos não por muito tempo. Quem o fizer, pagará caro depois, com a perda de própria liberdade e, muito provavelmente, da dignidade.

Devemos desfrutar a liberdade e uns dos outros enquanto for bom para todos. E permitir que as pessoas amadas também vivenciem sua liberdade. E sigam seu caminho, sejam ele qual for. Nisso consiste o verdadeiro amor.



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Regras do amor

Outro dia uma amiga me disse que seria capaz de matar o marido caso ele olhasse para outra. E ela falava sério; deu medo. Também não se permitia nenhum tipo de liberdade; conseguir sair para jantar com as amigas já era uma dificuldade. Perguntei se ela o amava. Claro que sim! E concordava com a vida que tinha? Ah, a gente acostuma. Mas sentia tesão quando estava com ele? Silêncio. Resolvi me calar para não constrangê-la ainda mais. 

Tem gente que se preocupa mais em seguir as regras do relacionamento, que, na maioria das vezes, nem sequer foram pensadas pelas pessoas envolvidas, do que com a própria relação. Para esses, saber que o parceiro é sexualmente fiel e que vai voltar no fim do dia é mais importante que os momentos compartilhados.

Mulheres são incentivadas a manter o marido a qualquer custo, e aguentam todo tipo de desamor e desaforo. Homens buscam uma esposa que cuide dos filhos (e, em alguns casos, também deles), mesmo que precisem saciar seus desejos em outras bandas (sem que a mulher saiba ou possa fazer a mesma coisa, claro).

Em que momento as regras se tornam mais importantes que as próprias relações?

Parece tudo muito óbvio: a gente conhece alguém de que goste, namora, se casa, tem filhos, os dois se mantêm fiéis e se amam até o fim da vida. Simples e perfeito.

Espera, ninguém pensa diferente? Ninguém pensou, por exemplo, em casar e depois namorar ou ter filhos e não casar? Sei lá, somos tão diferentes em tantos aspectos, como então existe apenas um modelo de relacionamento que todos devem seguir? Será? 

É claro que existem outros modelos, e todos conhecemos pessoas que os seguem. Apenas não falamos nem pensamos muito a respeito, quando muito os julgamos em rodinhas de amigos, e continuamos ensinando nossos filhos, principalmente filhas, que o modelo de amor romântico é o único a ser seguido, e que serve para todo mundo.


A verdade: não serve. Um monte de gente não se adapta a esse modelo e busca alternativas que funcionem para si. E é preciso coragem para se questionar e descobrir do que gosta. Nisso reside a verdadeira liberdade.