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quinta-feira, 6 de abril de 2017

A pílula anticoncepcional é segura?

A primeira pílula anticoncepcional foi lançada no mercado em 1960. Em sua composição, havia doses altas de hormônios que causavam efeitos colaterais desagradáveis e potencialmente perigosos à saúde da mulher. Por outro lado, a pílula representou um avanço importante nos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, que pela primeira vez na história puderam controlar sua sexualidade e sua vida reprodutiva com mais eficácia e a custos mais baixos.

No entanto, no início, as primeiras mulheres que fizeram uso da pílula não foram bem informadas acerca dos riscos do medicamento, e movimentos feministas, principalmente nos Estados Unidos e Europa, passaram a pressionar a indústria farmacêutica para que estudasse e divulgasse nas bulas e entre a comunidade científica os possíveis riscos do uso contínuo da pílula anticoncepcional.

Muitos anos se passaram desde então, e hoje há várias pílulas no mercado, a maioria com doses bem mais baixas de hormônios. Por exemplo, algumas contêm 15 microgramas de estrogênio, dose dez vezes mais baixa que a primeira pílula lançada no mercado, que continha 150 microgramas do hormônio.


Leia também: Coletor menstrual: Por que não falamos dele?

Seus efeitos adversos e riscos também são bem reconhecidos e conhecidos, já que a pílula vem sendo estudada há mais de 55 anos. Como todo medicamento, ela apresenta contraindicações e riscos a alguns grupos de pessoas. Exatamente por isso, o ideal seria que todas as mulheres passassem por consulta médica antes de adotar um método anticoncepcional e que depois fossem acompanhadas para avaliar os riscos e benefícios individuais do método de escolha.

Mulheres com histórico familiar de trombose venosa e embolia pulmonar, com doenças cardíacas, hipertensão, diabetes, obesidade, distúrbios alimentares e tabagistas devem buscar outro método anticoncepcional, pois essas condições, somadas ao uso da pílula, aumentam o risco de desenvolver trombose venosa, doença potencialmente grave causada pela formação de coágulos (trombos) no interior das veias profundas. Para as demais mulheres, contudo, o risco de desenvolver trombose com o uso de pílula anticoncepcional de baixa dosagem é muito pequeno.

Todavia, recentemente, diversos casos da doença foram associados ao uso do medicamento e divulgados na internet, levando medo às mulheres que adotam o método anticoncepcional. Por causa do temor de desenvolver a doença, meninas jovens abandonaram o método e passaram a adotar outros cuja taxa de falha é muito alta: o coito interrompido e a tabelinha, muitas vezes com o auxílio de aplicativos para celulares.

Se considerarmos que muitas meninas iniciam a vida sexual ao redor dos 14 anos e têm acesso apenas a contraceptivos de barreira (camisinha e diafragma, por exemplo) e hormonais (injetáveis e orais), é possível supor o quão perigosa pode ser a difamação da pílula.

“Em 2014, houve 28.244 nascidos vivos de mães de 10 a 14 anos e 534.364 nascidos de meninas de 15 a 19 anos. A cada 19 minutos, uma menina de 10 a 14 anos se torna mãe no Brasil. São números muito altos”, explica a médica ginecologista Albertina Duarte Takiuti, coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente do Estado de São Paulo e coordenadora de Políticas Públicas para Mulher do Estado de São Paulo, citando dados do Datasus.

A médica alerta, também, para a importância da dupla proteção (preservativo associado a um método anticoncepcional) nas relações sexuais para evitar as doenças sexualmente transmissíveis e a gravidez indesejada.

“Vejo meninas que não usam a pílula porque não querem tomar hormônio, mas depois acabam recorrendo à pílula do dia seguinte. O que elas não sabem é que assim elas estão ingerindo metade da dosagem hormonal contida em uma cartela de pílulas de baixa dosagem em um único dia”, relata a médica. “A pílula do dia seguinte é um recurso importante para evitar a gravidez indesejada, mas não deve ser usada com frequência.”

A dra. Albertina reforça que é importante que a mulher “se sinta bem com o método anticoncepcional escolhido”, e que tenha possibilidade de relatar ao médico qualquer efeito desagradável que venha a sentir. A supervisão médica é importante exatamente para que essas pacientes sejam acompanhadas.

Quem faz uso de contraceptivos hormonais sem indicação e supervisão médica deve procurar um médico caso tenha efeitos adversos, procedimento recomendado durante o uso de qualquer medicamento.

A mulher deve ter direito de escolher o método anticoncepcional mais adequado para si. Para isso, precisa estar bem informada e orientada acerca do funcionamento do seu corpo e dos riscos e benefícios dos métodos disponíveis.

Nesse contexto, a pílula anticoncepcional, associada ao preservativo, pode ser um método seguro e de extrema importância para que a mulher possa exercer sua sexualidade com segurança e liberdade.


*Texto originalmente publicado no site "Drauzio Varella"

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Odor vaginal: por que ainda o tememos?

Muitas mulheres têm vergonha e dificuldade em aceitar que a vulva tem odor característico. Assim, valem-se de uma infinidade de produtos e medidas para disfarçá-lo, podendo, com isso, comprometer a saúde ginecológica.

A dra. Renata Lopes Ribeiro, médica assistente da Clínica Obstétrica Fetal do Fleury e da Maternidade São Luiz, ambas em São Paulo, esclarece as principais dúvidas sobre o tema:


1) Toda vagina tem odor? Por que ele ocorre?
A vagina elimina naturalmente secreções e odores resultantes do processo fisiológico de renovação celular, por isso toda mulher tem secreção e odor vaginal. Na maioria das vezes, esse odor é suave, pouco perceptível e pode mudar de intensidade e característica de acordo com as fases do ciclo menstrual.

2) Como saber se o odor vaginal indica a presença de algum processo infeccioso?
É muito importante que as mulheres saibam que toda vulva tem um cheiro natural característico, e que não há nada de errado nisso. Porém, o odor vaginal pode indicar infecção caso mude suas características habituais, fique muito intenso e esteja acompanhado de outros sintomas como coceira, ardência, corrimento vaginal (especialmente de coloração amarelada ou esverdeada) ou incômodo ou dor durante a relação sexual. Nesses casos, os sintomas podem indicar um desequilíbrio na flora vaginal e a presença de processos infecciosos que podem precisar de tratamento ginecológico.

3) O que fazer na presença desses sinais e sintomas?
Esses são sintomas de alerta, por isso é recomendado que, na sua presença, a mulher procure um ginecologista para avaliação. Corrimento e odor forte podem indicar desde infecções mais leves, causadas por fungos e bactérias que se proliferam quando há um desequilíbrio da flora vaginal, até doenças sexualmente transmissíveis, como clamídia e gonorreia. Menos comumente, esses sintomas surgem devido à retenção de objetos, como absorvente íntimo ou camisinha, no interior da vagina.

4) As duchas vaginais são indicadas para a higiene vaginal? Por quê?
Para eliminar o odor vaginal e se sentir mais limpas, algumas mulheres recorrem às duchas vaginais com os mais diferentes produtos. Porém, elas não são recomendadas, uma vez que podem alterar a flora vaginal, atrapalhando a defesa do organismo, além de favorecerem a ascensão de micro-organismos de fora para dentro da vagina. Também podem, dependendo da intensidade, causar microlesões na mucosa vaginal.

5) O uso de sabonetes e lenços íntimos é recomendado para a higiene íntima?
Os sabonetes íntimos normalmente possuem pH mais ácido (entre 4,5 e 5,5), que se assemelha ao pH vulvar, e são hipoalergênicos. São dispensáveis, ou seja, não são necessários para realizar a higiene íntima adequada. No entanto, algumas mulheres se sentem bem ao usá-los, e podem fazê-lo desde que não os utilizem mais de uma vez ao dia, pois seu uso excessivo pode remover a proteção local e desidratar a pele e a mucosa vaginal.

O uso de lenços íntimos, por sua vez, pode ser um recurso útil quando a mulher não estiver em casa, mas é importante evitar ficções intensas e o uso demasiado.

6) O absorvente diário (protetor de calcinha) ajuda a evitar o odor vaginal?
O uso de absorvente diário é um hábito relativamente comum entre as mulheres, para evitar que a secreção vaginal fique na roupa íntima. Porém, essa prática dificulta a ventilação da área íntima e favorece a multiplicação de bactérias e fungos, portanto deve ser evitada.

7) Como higienizar a região íntima corretamente?
A higienização da vulva (região externa) deve ser feita uma vez ao dia durante o banho, sem fricções intensas, com água e sabonete neutro, durante um a três minutos. Dê preferência a sabonetes sem muita atividade detergente, sem perfume exagerado e que não tenham pH muito ácido. Os sabonetes de glicerina são uma boa opção. Sabonetes com muitos produtos químicos podem predispor a reações alérgicas. Evite, também, o uso de buchas e esponjas.

A higiene excessiva pode piorar o odor vaginal, pois remove a proteção natural local, predispondo a infecções e reações alérgicas.

8) Algumas mulheres reclamam de odor forte durante a menstruação. Como evitá-lo?
A higiene íntima não precisa ser alterada durante o período menstrual. No entanto, é preciso trocar os absorventes internos ou externos com frequência, pois se o tempo de troca não for respeitado, o sangue se acumulará no absorvente, podendo ocasionar mau cheiro.

9) Roupa justa ajuda a intensificar o odor vaginal? Qual a roupa íntima mais indicada?
A roupa muito justa dificulta a circulação de ar no local, o que predispõe ao acúmulo de fungos e bactérias que podem favorecer infecções e causar odor desagradável. Prefira roupas mais largas e opte por calcinhas de algodão.

10) É comum o odor diferir de uma mulher para outra? O que é possível fazer para reduzir o odor mais intenso?
Certas características individuais podem fazer com que algumas mulheres tenham um odor mais intenso, tais como: 1) transpiração excessiva: nesse caso, recomenda-se a troca mais frequente de roupa íntima e que se dê preferência para peças de algodão; 2) obesidade: as dobras da pele podem acumular secreções, pois isso é indicado que se dê atenção especial a essas áreas, mantendo-as sempre limpas e secas; e 3) alimentação: algumas mulheres relatam mudança no odor vaginal quando ingerem alimentos como determinados peixes, alho ou certos suplementos. No entanto, isso é pouco comum e basta evitar o consumo desses alimentos para que o odor volte às suas características habituais.

Sexo Oral
Se toda mulher tem odor na região íntima e essa é uma característica natural e fisiológica, por que tantas mulheres não se sentem à vontade durante o sexo, especialmente por terem vergonha do próprio cheiro?

Um número muito alto de mulheres desconhece o próprio corpo e sua sexualidade. A pesquisa Mosaico 2.0, divulgada em 2015 e coordenada pela psiquiatra Carmita Abdo, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), entrevistou 3 mil pessoas entre 18 e 70 anos de sete regiões metropolitanas do país. Os dados revelam que 40% das mulheres não têm o hábito de se masturbar e 19,5% nunca o fizeram. Já entre os homens, apenas 17,3% não praticam a masturbação habitualmente.

Assim, não é surpresa que 44,4% das mulheres relatem algum grau de dificuldade em atingir o orgasmo e que sejam comuns as queixas de falta de libido nos consultórios médicos.

Por que isso ocorre? A resposta é simples: a desigualdade de gênero, comum à nossa cultura, limita a expressão da sexualidade feminina, que historicamente sempre foi reprimida.

Sem se conhecer nem saber o que de fato lhe dá prazer, como as mulheres podem se aceitar e desenvolver todo o potencial da sua sexualidade, ainda mais considerando que muitas sequer se julgam merecedoras do prazer sexual?

As meninas aprendem desde cedo que se tocar é algo feio e sujo, que deve ser evitado. Os adultos não costumam conversar com elas sobre a importância do prazer sexual e como é possível chegar a ele. Portanto, elas crescem sem estabelecer uma relação de intimidade com o próprio corpo.

Na vida adulta, a desigualdade entre homens e mulheres chega à cama. Elas temem ser julgadas por determinadas atitudes e comportamentos, o que limita o prazer sexual. São poucas as que conseguem expressar suas vontades e desejos com naturalidade, assim como são raros os homens dispostos a atendê-los.

Portanto, ainda é comum que a mulher e a vagina sejam vistas apenas como meios de dar prazer ao homem e trazer os filhos ao mundo. O órgão sexual feminino é tido como feio, desconhecido, algo que não deve ser encarado e aceito. A enorme quantidade de produtos que prometem diminuir e disfarçar o odor vaginal à disposição nas farmácias e drogarias são a prova de que a sociedade ainda não sabe lidar e aceitar o corpo feminino.

Outra pesquisa realizada em 2015 no estado de São Paulo, essa pela empresa Sex Wipes, com 1.252 homens heterossexuais e sexualmente ativos de 18 a 30 anos, revelou que 43% (4 em 10) não realizam sexo oral nas parceiras, embora 78% afirmem receber. Dos que o praticam nas companheiras, 35% dizem não gostar de fazê-lo. O motivo? Nojo: da aparência, do cheiro e da umidade da vulva.

Não há explicação lógica para alguém sentir nojo da pessoa que o atrai sexualmente que não envolva aspectos culturais machistas que nos distanciam, homens e mulheres, do corpo e da sexualidade feminina.


*Texto originalmente publicado no site Drauzio Varella

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Mães meninas

As meninas mais pobres têm maior risco de engravidar do que as mais ricas. É o que revela a pesquisa Pense 2015 (IBGE), feita com estudantes do 9° ano do ensino fundamental de todo o país.

Os dados mostram que 27,5% (723,5 mil) dos alunos do 9° ano, que têm em média 14 anos de idade, já mantiveram relações sexuais: 36% dos meninos e 19,5% das meninas.

Das meninas que fizeram sexo, 9% declararam ter engravidado alguma vez, o que representa 23.620 meninas. Dessas, a maioria cursava a rede pública (9,4%). Apenas 3,5% das meninas que já engravidaram frequentavam a rede privada de ensino.

Mas por que as meninas de classes sociais menos favorecidas ainda engravidam mais do que as de classe média e ricas, se quase 90% dos alunos afirmaram receber informações sobre gravidez e saúde sexual? A resposta é simples: informação por si só não é suficiente.


Leia também: Elas não usam camisinha
Em primeiro lugar, pensemos apenas no que oferecemos às meninas e deixemos os rapazes de lado, pois é sabido que os homens, tanto os mais ricos quanto os mais pobres, em geral se importam pouco com a contracepção, embora essa devesse ser tarefa de todos, homens e mulheres.

Proporcionamos às mais ricas uma educação de melhor qualidade, que lhes permite criar expectativas em relação ao futuro, além de mais oportunidades. Assim, sonhos e planos como viajar, entrar em uma faculdade, conhecer outros lugares e pessoas e aprender novas habilidades quase sempre antecedem o desejo da maternidade.

Quando essas meninas entram em idade fértil, conversamos com elas sobre sexo e as levamos ao ginecologista, que passa a acompanhá-las com frequência e a orientá-las na escolha do melhor método anticoncepcional, a que certamente terão acesso.

Se os anticoncepcionais por acaso falharem, pagamos-lhes o aborto em clínicas onde podem contar com médicos que lhes garantam segurança. Para as mulheres de classe social mais alta, a criminalização do aborto pode ser resolvida com dinheiro.

As meninas mais ricas não se sentem socialmente pressionadas a engravidar; suas amigas não têm filhos e a elas são oferecidos vários papéis sociais que não o de mãe.

Com um ou mais filhos nos braços, as meninas de classes sociais mais baixas que mal saíram da infância não conseguem dar seguimento aos estudos, tampouco melhorar as condições de vida da família. Acabam destinadas a serviços mal remunerados, de onde tiram o sustento dos filhos, muitas vezes sem nenhum apoio.

Para as mulheres de classes mais abastadas, a maternidade é, na maioria das ocasiões, uma escolha e não um destino do qual não se pode fugir. Por que aceitamos condenar as mais pobres a uma realidade que evitamos para nossas filhas?


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Aborto e Igreja

O novo ministro da Saúde, Ricardo Barros, reconheceu, em entrevista à edição de hoje (17/05/16) do jornal “O Estado de São Paulo”, que é preciso discutir com urgência a questão do aborto, e que vai “estudar com muito carinho” o tema. Seria uma postura digna de elogios, se em seguida o ministro não afirmasse que quer conversar com a Igreja antes de traçar diretrizes para agir.

Não pretendo entrar no mérito da questão do aborto, até porque já escrevi várias vezes sobre a importância da sua descriminalização aqui e em outros veículos. Meu ponto é: por que diabos um ministro da Saúde pretende chamar a Igreja para tratar de um tema de saúde pública? Por que não ouvir médicos, profissionais da saúde e estudiosos do assunto?

A resposta parece bastante óbvia: como já conhecemos o posicionamento da Igreja quanto ao aborto, é claro que o ministro, ao dizer que vai escutar a Igreja, isenta-se da responsabilidade de enfrentar a questão. Aliás, ele não será o primeiro a fazê-lo. Até onde sei, o único ministro da Saúde que teve coragem de aceitar discutir o tema de verdade, sem subterfúgios, foi o ex-ministro José Gomes Temporão, que ocupou o cargo entre 2007 e 2011. Mesmo assim, enfrentou sérias resistências no governo e não conseguiu avançar o debate.

Para além dessa questão, o que me parece essencial discutir é se queremos mesmo que a Igreja Católica e outros grupos religiosos continuem impondo condutas para além de seus fiéis. Até quando grupos religiosos seguirão, com aval de representantes políticos, se intrometendo nos direitos dos cidadãos e cidadãs?

Não tenho nada contra quem queira seguir os dogmas da Igreja ou de qualquer religião, só não aceito que eles sejam impostos a mim, e o Estado laico me garante esse direito. É tão difícil entender?

Apesar de boa parte da sociedade não se interessar pela opinião dos religiosos acerca do casamento gay, do aborto, da discussão sobre gênero nas escolas e de outras questões, poucos são os políticos que ousam enfrentar os grupos religiosos. Preferem ignorar os que sofrem com os desmandos da Igreja do que afrontá-la.

Será que ainda veremos um governo, qualquer que seja ele, dizer em alto e bom som para os religiosos que eles não podem opinar no modo como as pessoas que não lhes dão importância devem viver?


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 26 de abril de 2016

Elas não usam camisinha


As meninas não usam camisinha. Ou melhor, até usam, mas em geral quando os meninos impõe. E eles, sabemos, não curtem muito preservativo.

Diversas pesquisas revelam que as adolescentes relutam em exigir o uso da camisinha nas relações sexuais. E há vários motivos para isso.

A adolescência é um período de incertezas e descobertas. As mudanças físicas, psicológicas e comportamentais pelas quais os jovens passam nessa fase são intensas. Se iniciar a vida sexual é difícil para os meninos, criados para serem machos e viris, imaginem para as meninas, ensinadas a controlar e por vezes negar a própria sexualidade.

Leia também: O desamparo das mulheres com zika


O resultado é que 40% das meninas entre 14 e 25 anos não usam preservativos. Um terço dessas jovens (32%) já engravidou; 12,4% sofreram abortamento espontâneo ou provocado. (Fonte: II Lenad, 2012.)

As mulheres, além do risco de engravidar, são mais suscetíveis, por questões anatômicas, a contrair doenças sexualmente transmissíveis nas relações heterossexuais. E o risco de gerar outra vida é, muitas vezes, assumido apenas pelas meninas, que têm de se virar para conseguir abortar ou criar o filho do rapaz que se nega a usar preservativo.

Não à toa, a infecção pelo HIV vem crescendo entre as adolescentes de 13 a 19 anos. Desde 1998, o número de meninas infectadas pelo vírus supera o de meninos (Fonte: Ministério da Saúde, 2007).



Sabemos que as meninas são criadas de maneira diferente dos meninos. Enquanto estes são estimulados a praticar sexo desde muito novos, elas aprendem que não devem demonstrar desejo. Essa diferença, é claro, também aparece mais tarde, na hora de exigir a camisinha.

Como esperar que a jovem, depois de aprender que é preciso esconder seus desejos sexuais e ser cordata e submissa, de repente passe a se impor e exigir o uso de preservativo? Como querer que ela seja responsável se não lhe damos ferramentas para que exerça a liberdade sexual de que vai dispor no futuro?

As meninas só vão se proteger se sentirem-se seguras e valorizadas. Para isso, precisamos falar de sexo com elas desde cedo, ensinar-lhes que se respeitar não é negar seus desejos nem seguir uma cartilha de comportamentos e sim saber estabelecer relações saudáveis, em que suas vontades sejam acatadas.

É necessário que entendamos, de uma vez por todas, que as meninas também têm desejos e que, de uma forma ou de outra, eles serão expressados. Resta saber em que condições queremos que isso aconteça.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Mulheres criam projeto para ajudar crianças com microcefalia

Cida Nicolau e as filhas Maria Clara Vieira e Maria Júlia Vieira, moradoras de São Bernardo dos Campos (SP), ficaram, como a maioria dos brasileiros, muito tocadas quando as notícias sobre o aumento dos casos de microcefalia relacionados ao Zika virus começaram a surgir. Sensibilizadas pelas histórias de mulheres pobres que têm de cuidar de filhos com sérias limitações físicas e cognitivas, resolveram agir e criaram a plataforma online Cabeça e Coração (cabecaecoracao.com), que conecta quem precisa de ajuda e quem quer ajudar.

A jornalista Maria Clara conta que o primeiro passo foi ir atrás das mães em comunidades das redes sociais voltadas para os casos de microcefalia e convidá-las a fazer parte do projeto. Após uma breve entrevista e a verificação da veracidade da história, as mães montam uma lista dos itens de primeira necessidade de que mais carecem, fornecem seu endereço e conta bancária e aguardam a publicação do seu pedido no site. A ajuda lhes chega diretamente, sem intermediários.

Há duas maneiras de contribuir, enviando os itens pelo correio diretamente para a casa da criança ou fazendo uma transferência bancária para a conta da mãe da criança.

“Decidimos usar a tecnologia para facilitar o contato entre as mães e as pessoas que querem ajudar”, explica Maria Clara. “O retorno tem sido muito positivo, as mães compartilham suas histórias na nossa comunidade no Facebook.”

Nem todas as mães cujos filhos têm microcefalia tiveram zika, mas suas histórias são parecidas: mulheres jovens e moradoras de regiões carentes do país cujos filhos com microcefalia alteraram totalmente a rotina da família. Algumas foram abandonadas pelos companheiros ao receberem o diagnóstico. Boa parte tem outros filhos pequenos, e muitas moram muito longe dos centros de tratamento especializados, sendo obrigadas a viajar horas para oferecer ao bebê os cuidados necessários.

O caso de Daniele, moradora de Recife (PE) e cujo filho Juan Pedro tem microcefalia, ilustra bem a situação de desamparo em que essas mulheres se encontram. Mãe de outra criança de 11 anos e abandonada pelo companheiro, que “não aguentava o choro do bebê”, Daniele ainda não sabe se conseguirá manter o emprego de recepcionista de que tanto necessita, pois o filho requer assistência integral.

Já Laurineide, desempregada e moradora de Monteiro (PB), precisa viajar cerca de 400 km até Recife três vezes por semana para que o filho tenha acesso ao tratamento. A prefeitura da cidade fornece o carro e o combustível de ida, mas ela precisa pagar o combustível de volta e uma refeição na cidade. Gasta R$ 120,00 por vez.

As idealizadoras da plataforma, que não recebem nenhum centavo pelo trabalho, pretendem ampliá-la, atraindo mais mulheres e interessados em ajudar. Para tanto, contam com a divulgação e a boa vontade daqueles que compreendem a gravidade da situação dessas mulheres e crianças que, na enorme maioria dos casos, não têm a quem recorrer.

*Matéria originalmente publicada no drauziovarella.com.br

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O desamparo das mulheres com zika


Todo mundo já ouviu dizer que o vírus zika causa microcefalia em fetos de mulheres infectadas. O que pouca gente sabe é que o comprometimento neurológico desses bebês é muito mais grave do que o das pessoas com microcefalia de origem genética. É tão mais grave que muitos médicos evitam o termo “microcefalia” e já falam em síndrome neurológica causada pelo zika, cujas limitações físicas ainda estão sendo estudadas.

O Zika virus é transmitido pelo Aedes aegypti. Disso já sabemos. Também sabemos que o mosquito se reproduz em água parada, principalmente em regiões em que o saneamento básico e o abastecimento de água são precários, o que leva a população local a armazenar água. Resultado: por enquanto, a imensa maioria das grávidas que contraíram o vírus da zika é de mulheres pobres e moradoras da região nordeste do país.


São mulheres muitas vezes jovens, com mais de um filho para criar, sem assistência médica decente, em alguns casos abandonadas pelos parceiros e que agora vivem aterrorizadas diante da possibilidade de ter um filho com sérias limitações físicas e intelectuais. Ninguém as preparou para essa situação em que agora se encontram. Desamparadas, não sabem o que pensar, a quem procurar, o que fazer.

Algumas mulheres com condições financeiras melhores, frente à perspectiva de ter um filho com tantas limitações ainda desconhecidas, têm optado pelo aborto clandestino. Antes de crucificá-las, é preciso buscar compreendê-las.

Diante de um quadro tão grave e sem precedentes, um grupo de profissionais e ativistas está redigindo uma ação ao STF, que se divide basicamente em dois braços, segundo a antropóloga Débora Diniz, uma das idealizadoras da ação:

1) Acesso ao exame de testagem para o Zika virus a todas as gestantes das regiões endêmicas. Em caso de resultado positivo, a gestante deverá ter acesso a todas as informações a respeito da doença e dos riscos a que está sujeita. Após esse momento, terá a oportunidade de escolher entre interromper a gestação ou dar seguimento à gravidez.

2) No primeiro caso, ela poderá ter acesso ao programa de Aborto Legal, já previsto em casos de anencefalia e estupro, por exemplo. Caso ela decida seguir com a gestação, contará com políticas sociais amplas de proteção à maternidade e à infância. Mãe e criança deverão receber assistência que vise a melhorar a qualidade de vida de ambas.

Não se trata de impor o aborto a crianças com malformações, mas de conceder o direito individual de escolha a mulheres que sofrem tortura psicológica causada pela ameaça de ter um filho com uma síndrome tão grave.

Estamos vivendo uma epidemia sem precedentes. Não é hora de discussões acaloradas e passionais, mas de olharmos com empatia e respeito para mulheres já abandonadas pelo Estado e oferecer-lhes acesso a informações e amparo em suas escolhas, quaisquer que sejam elas.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Desigualdade social e gravidez na adolescência


As meninas que engravidam na adolescência são, na maioria dos casos, pobres e têm menos escolaridade, segundo dados do IBGE.

O número de meninas adolescentes com filhos diminuiu na última década. Mesmo assim, continua alto. Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais 2015, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no último dia 4/12.

Em 2004, de cada mil mulheres de 15 a 19 anos, 78,8 tinham ao menos um filho, o que significava 18,4% da taxa de fecundidade total. Em 2014, esse número caiu para 60,5, representando 17,4% da taxa de fecundidade total. Portanto, de cada cinco partos, quase um é realizado em uma mãe adolescente.

Apesar da queda, o número de adolescentes com filhos no Brasil ainda é bem maior do que na Europa (16,2 por mil meninas) e nos EUA (28,3 por mil), mas próximo do nível observado na América Latina e Caribe (66,5 por mil) e mais baixo que o da África (98,5 por mil).

Entre as jovens dessa faixa etária que não tinham filhos em 2014, 40,4% residiam na região Sudeste e 56,3% se declaravam pretas ou pardas. A média de anos de estudo era de 8,9 anos; 73,7% ainda estudavam ; e 14,7% não estudavam nem trabalhavam.

Das meninas que tinham ao menos um filho, 35,8% moravam no Nordeste e 69% se declaravam pretas ou pardas. A média de escolaridade era de 7,7 anos (85% não completaram o ensino médio); somente 20,1 ainda estudavam; 59,7% não estudavam nem trabalhavam; e 92,5% cuidavam dos afazeres domésticos por uma média de 27,1 horas semanais.

A taxa de adolescentes com filhos mostra uma faceta conhecida dos brasileiros: a desigualdade social. Os dados revelam que a maioria das mães adolescentes tem poucos anos de escolaridade, é negra e vive nas regiões menos economicamente desenvolvidas do país.

São vários os fatores que levam as meninas a engravidar em uma fase da vida em que deveriam se preocupar com os estudos e em aproveitar a juventude. Muitas têm conhecimento acerca dos métodos contraceptivos, mas ignoram como utilizá-los corretamente. Assim, acabam usando o anticoncepcional de forma errada, o que torna sua eficácia reduzida.

Há regiões em que o acesso a esses métodos é precário. Nem todo posto de saúde oferece contraceptivos, entre eles a pílula do dia seguinte. Com acesso limitado, menos informações e a dificuldade comum às meninas muito novas em aderir a métodos que exigem regularidade de uso, a contracepção, muitas vezes, falha.

Essas adolescentes também têm baixa perspectiva em relação à escolaridade e à futura inserção no mercado de trabalho. Com isso, o papel social que lhes sobra é o de mãe.

Como fazer para essas adolescentes não terem filhos tão cedo e, com isso, traçarem um caminho que as afaste completamente da escola e de uma vida profissional com expectativas melhores?

Nossa sociedade conhece a resposta, embora não nos empenhemos em aplicá-la da mesma forma que fazemos com as meninas das classes mais favorecidas.

Em primeiro lugar, oferecemos às meninas mais ricas uma educação de melhor qualidade, que lhes permite criar expectativas em relação ao futuro. Assim, sonhos e planos como viajar, entrar em uma faculdade, conhecer outras culturas e pessoas, aprender novas habilidades e montar a própria casa antecedem o desejo da maternidade.

Quando essas meninas entram em idade fértil, conversamos com elas sobre sexo e as levamos ao ginecologista, que passa a acompanhá-las e orientá-las na escolha do melhor método anticoncepcional, a que certamente terão acesso.

Se os métodos por acaso falharem, pagamos-lhes o aborto em clínicas onde elas podem contar com médicos que lhes garantam segurança. Para as mulheres de classe social mais alta, a criminalização do aborto pode ser resolvida com dinheiro.

Elas não se sentem socialmente pressionadas a engravidar; suas amigas não têm filhos e a elas estão destinados vários papéis sociais que não os de mãe.

Com um ou mais filhos nos braços, as meninas de classes sociais mais baixas que mal saíram da infância não conseguem dar seguimento aos estudos, tampouco melhorar as condições de vida da família. Acabam destinadas ao serviço doméstico, sem que essa tenha sido necessariamente sua escolha.

Para as mulheres mais ricas, a maternidade é, na maioria das vezes, uma escolha e não um destino do qual não se pode fugir. Por que aceitamos condenar as mais pobres a uma realidade que evitamos para nossas filhas?

Todos deveriam ter direito de exercer sua sexualidade e decidir quando e quantos filhos desejam ter, e contar com o acesso a métodos que lhe assegurassem esse direito.

Uma sociedade que nega a garantia dos direitos reprodutivos a todas as mulheres em idade fértil, sem exceção, deveria no mínimo envergonhar-se.


*Texto originalmente publicado no site drauziovarella.com.br

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Violência contra a mulher: negras são as principais vítimas


Até bem pouco tempo atrás, não havia nenhuma lei específica que protegesse as mulheres de agressões e crimes. Isso começou a mudar em 2006, quando entrou em vigor a Lei 13.340, conhecida como Lei Maria da Penha, que visa punir os casos de violência contra a mulher. Ainda mais recentemente, em março de 2015, foi promulgada a Lei 13.104 que passou a considerar crime hediondo os homicídios cometidos “por razões de condição de sexo feminino”, ou seja, os assassinatos perpetrados contra uma pessoa simplesmente por ela ter nascido mulher.

Mas será que essas leis de fato bastam para proteger as mulheres e evitar que ocorram novos casos de violência e homicídios?

De acordo com dados do recém-lançado Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil, não. De autoria do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, o mapa conta com o apoio de várias instituições, entre elas ONU – Mulheres e OPAS/OMS (Organização Pan-Americana da Saúde – Organização Mundial da Saúde). Vamos a alguns números:

  • Só em 2013, foram assassinadas 4.762 mulheres no território nacional, o que coloca o Brasil em quinto lugar entre os países com mais casos de homicídio feminino do mundo. Ficamos atrás apenas de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia; nossa taxa de homicídio feminino é 48 vezes maior que a do Reino Unido e 24 vezes maior que a da Irlanda ou da Dinamarca;

  • A taxa de homicídio entre as mulheres brancas caiu de 3,6 por 100 mil em 2003 para 3,2 em 2013, uma redução de 11,9%. Já entre as mulheres negras, houve um aumento de 4,5 para 5,4 por 100 mil no mesmo período, um crescimento de 19,5%;
  • Em 2013, foram assassinadas 66,7% mais negras do que brancas;
  • No que se refere aos feminicídios, há poucos dados disponíveis. No entanto, sabe-se que dos 4.762 homicídios realizados em 2013 cujas vitimas eram mulheres, 50,3% foram cometidos por familiares, o que dá uma média de 7 homicídios por dia;
  • Parceiros ou ex-parceiros foram autores de 33,2% desses assassinatos, ou seja, 4 vítimas por dia;
  • Dos adultos que procuraram o SUS em 2014 por intercorrências causadas por violência (doméstica, sexual e/ou outras), 71,3 por 10 mil eram mulheres, enquanto 28,6 por 10 mil eram homens. Entre os adolescentes atendidos, essa proporção foi ainda maior: 65,1 por 10 mil mulheres ante 34,9 por 10 mil homens;
  • Nesse ano, 405 mulheres sofreram violência por dia e precisaram ser atendidas pelo SUS;
  • No conjunto de todas as idades, 67,2% das agressões contra mulheres foram cometidas por parentes imediatos ou parceiros e ex-parceiros.



Esses e outros dados do mapa nos revelam aquilo que estudiosos das questões de gênero já sabem: a violência contra a mulher não é homogênea, distribui-se de forma não igualitária entre regiões, idades e raças.

Alguns estados, como Roraima e Espírito Santo, apresentam taxas muito mais elevadas do que outros. Os municípios com índices mais altos de assassinato de mulheres são os de pequeno porte, mais espalhados pelo interior do país.

É verdade que os homens são a maioria das vitimas de homicídio no Brasil. No entanto, a violência sofrida pelas mulheres assume uma peculiaridade macabra: é praticada na imensa maioria das vezes dentro de casa, em um ambiente que lhes deveria oferecer segurança, por parentes ou parceiros e ex-parceiros.

Com esses dados, podemos afirmar que as principais vítimas de feminicídios no Brasil têm rosto, e ele é negro e jovem. Seus algozes também são conhecidos, tanto pelas próprias mulheres quanto pela sociedade.

Se sabemos quem são as vítimas e os agressores, por que não conseguimos impedir que novos crimes ocorram? A resposta é simples, porém incômoda: porque achamos normal e, portanto, aceitável que homens disponham da vida e do corpo das mulheres como desejam. Não consideramos, apesar das leis, crime grave um marido agredir a esposa ou um pai bater na própria filha. Afinal, não costumamos dizer, por exemplo, “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”?

A violência contra a mulher é uma violação grave aos direitos humanos. Gera custos com saúde e despesas legais perfeitamente evitáveis, desestrutura famílias, traz consequências terríveis para quem a vivencia direta e indiretamente.

Há vários aspectos culturais que explicam a violência de gênero, que está enraizada na desigualdade estrutural que há entre homens e mulheres. Para evitá-la, é preciso que haja políticas eficientes para as mulheres, em especial as negras e pobres, e a aplicação das leis vigentes.

Supõe-se que menos de 7% dos homens que cometem violência grave contra a mulher sejam condenados. Cientes da impunidade e da omissão da sociedade, eles continuam a circular por aí, como se não fossem os criminosos que são.

*Texto originalmente publicado no site drauziovarella.com.br

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Eduardo Cunha e sua luta contra os direitos

O deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ) é um homem incansável. Sua luta contra os direitos daqueles que ele considera indignos beira a obsessão. A mais nova iniciativa do peemedebista se chama PL 5069/2013, e está prevista para ser votada hoje, 22/9, na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, já com as emendas do deputado Evandro Gussi (PV/SP).

O projeto, em suma, dificulta o atendimento e altera os direitos já garantidos às vitimas de estupro. Como? Assim:

1) Atualmente, o aborto é permitido por lei em casos de estupro, entre outras situações. O PL de Cunha prevê a criminalização da facilitação ou instigação do aborto, com penas maiores para agentes de saúde. O projeto não faz ressalvas explícitas às ocorrências de estupro, o que abre brecha para que profissionais, com medo de punições, não orientem ou atendam as vitimas nos casos em que o aborto é permitido por lei. Essa “omissão” dos casos de estupro certamente não foi um descuido dos deputados, mas antes algo muito bem pensado.

2) Hoje se entende por violência sexual “qualquer forma de atividade sexual não consentida”. Pelo projeto de lei, só serão consideradas vítimas de violência sexual aqueles que puderem comprovar a agressão por meio do exame de corpo de delito, caso contrário não receberão atendimento especializado. Os deputados ainda retomam, no projeto, a definição de violência sexual constante do Código Penal de 1940, em que, para ser considerada vítima desse tipo de violência, é preciso haver ”dano físico ou psicológico”. Ora, sabemos que se nem todo ato de violência sexual deixa sequelas físicas aparentes, o que dizer então dos danos psicológicos, que são ainda mais suscetíveis à contestação?

3) No momento, toda a rede SUS é obrigada a fornecer atendimento imediato às vítimas de violência sexual. Esse atendimento compreende, entre outras medidas, tratamento das lesões, amparo médico, psicológico e social, profilaxia da gravidez (pílula do dia seguinte) e informação de serviços sanitários disponíveis. Pelo PL, além de ser necessária a comprovação da violência sexual antes do atendimento, os serviços não serão mais obrigados a fornecer a pílula do dia seguinte nem informar a vitima sobre seus direitos, que incluem acesso aos serviços de aborto legal, caso esse seja seu desejo. (Em tempo: a ciência já demonstrou que a pílula do dia seguinte não é abortiva, ela impede a ovulação ou, quando esta já ocorreu, a formação do endométrio gravídico, camada que recobre o útero para receber o óvulo. Duvido muito que os nobres deputados desconheçam esse fato.)

Muito bem. Na prática, estamos dizendo à vitima de estupro que não acreditamos nela, que ela deve se virar para comprovar que sofreu violência, caso contrario não receberá o acolhimento devido. Caso ela passe pelo constrangimento de ter de provar que é vítima e consiga atendimento, ela não terá garantido o acesso à pílula do dia seguinte nem ao serviço de aborto legal.

Não sei você, mas eu pensaria duas vezes antes de procurar ajuda, caso fosse vitima de estupro. Já que eu não poderia impedir a violência sexual sofrida, pelo menos evitaria me submeter à violência que essa sociedade hipócrita me reservaria ao me negar um atendimento digno e especializado.



Não sei se o projeto vai ser aprovado, mas tenho certeza de que os deputados não se darão por vencidos. Portanto, nobres deputados, já que lhes xingar de nada adiantaria, peço ao menos que respeitem as mulheres, que constituem mais de 50% da população brasileira, e não mexam em direitos já constituídos. Procurem fazer algo mais útil, como, por exemplo, ir atrás de um terreno para capinar.

*Texto originalmente publicado na página "Quebrando o Tabu"

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O tabu do aborto


Hoje foi divulgada a notícia de que o Papa Francisco vai dar permissão para todos os padres perdoarem as mulheres que fizerem aborto e buscarem clemência. Atualmente, a Igreja Católica excomunga automaticamente todas as mulheres que passam pelo procedimento.

Atitude louvável, a do Papa. Ele tenta, aqui, fazer aquilo que o Brasil se recusa: olhar para os milhões de mulheres que, todos os anos, passam por um aborto provocado não como criminosas, mas como seres humanos que merecem cuidado.

Na verdade, a Igreja não está em condições de agir de modo diferente, se formos considerar os séculos de opressão exercida contra as mulheres. Mesmo assim, melhor essa atitude do Papa do que a anterior.

Nunca conheci ninguém que fosse favorável ao aborto, que achasse que a decisão de interromper uma gravidez fosse fácil ou bacana. É uma solução extrema. Mesmo assim, as mulheres abortam. E o fazem por motivos variados e independentemente do que achamos. Segundo o IAG (Instituto Alan Guttmacher), entidade americana que estuda a questão do aborto no mundo, cerca de 1 milhão de mulheres abortam todos os anos no Brasil.

É muita gente. A criminalização do aborto não faz com que as mulheres não abortem; faz apenas com que corram risco de vida (uma mulher morre a cada dois dias no país devido a complicações de aborto inseguro, segundo a OMS).

Sugiro, aqui, que façamos um exercício e nos coloquemos por um minuto no lugar dessas mulheres.

Por descuido ou acaso, você engravidou, mas não deseja ou não pode prosseguir com a gravidez. Você não tem recursos financeiros, não tem parceiro fixo, acha que ainda não tem idade suficiente para arcar com um filho, não importa o motivo que a levou a não desejar a gravidez, você não quer ou não pode seguir adiante.

O que fazer? A quem procurar? Como o aborto é crime, você será considerada criminosa se buscar um hospital ou serviço de saúde para pedir ajuda.

Você então vai atrás de informações por conta própria, e nesse processo tudo pode acontecer. Sem orientação de um especialista, que você não sabe onde encontrar e talvez nem tenha dinheiro para pagar, você reza para não morrer.

Sei que muitos vão dizer: “Então por que fez sexo, se não pode arcar com as consequências?”. Bom, então deveríamos tratar desse modo quem pega sífilis, gonorreia, HPV e outras doenças sexualmente transmissíveis. Afinal, contrair uma DST é um risco que todos que fazem sexo correm, mas apenas uma minoria, creio, deseja que as pessoas não tenham direito a um tratamento médico decente.

No entanto, condenamos milhares de mulheres aos riscos que um aborto inseguro implica. Não lhe oferecemos nenhuma alternativa, nenhum tratamento, nenhum amparo. Será que agiríamos assim se fossem os homens que engravidassem?

A verdade é que, assim como contrair uma DST, engravidar é um risco que quem faz sexo corre. E da mesma forma que uma pessoa não deve ser punida e esquecida porque contraiu uma doença, seja qual for, uma mulher que não deseja a gravidez também não deve ser abandonada à própria sorte.

A ideia de que as mulheres devem ser castigadas porque fazem sexo por prazer é tão antiga que é difícil acreditar que ainda nos deixemos levar por ela. Pior, que estruturemos nossa sociedade e nossos valores com base nela.

Por isso, gostaria de dizer ao Papa que nós, mulheres, não necessitamos de perdão. Precisamos e merecemos um Estado que ofereça serviço médico e garanta acesso à saúde e aos direitos reprodutivos. Em suma, merecemos respeito, cuidado e dignidade.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Coletor menstrual: por que não falamos dele?

À primeira vista, ele parece um cálice feito de silicone. Embora possa causar estranheza no início, a maioria das mulheres que o experimenta diz que não vive mais sem ele. Mesmo assim, pouca gente o conhece ou já ouviu falar dele.


O coletor menstrual, também chamado de “copinho”, é um dispositivo usado para coletar o sangue menstrual. Ajustável ao corpo, oferece baixo risco de infecções (não há nenhum caso de Síndrome do Choque Tóxico registrado com seu uso, por exemplo), é hipoalergênico, econômico – custa de R$ 85,00 a R$ 150, 00 – e reutilizável, podendo durar de cinco a dez anos.

Ao contrário do absorvente interno, que precisa ser introduzido no fundo do canal vaginal, o coletor deve ser colocado na entrada da vagina, o que pode causar certo desconforto durante o período de adaptação, que costuma variar de dois a cinco ciclos, em média.

Segundo a doutora Renata Lopes Ribeiro, médica-assistente da Clínica Obstétrica do Hospital das Clínicas da FMUSP e membro da equipe de Medicina Fetal do Fleury e da Maternidade São Luiz (SP), é preciso esvaziá-lo a cada 6 a 12 horas, dependendo da intensidade do fluxo menstrual. Para higienizá-lo, basta lavá-lo com água fria e sabão e fervê-lo após o período menstrual. Como o sangue não entra em contato com o ar, o coletor também evita o mau odor, que pode ocorrer com o uso de absorventes externos.

Em geral, as marcas disponíveis no mercado oferecem dois tamanhos de coletores, um para mulheres que não tiveram filhos e outro para as que já tiveram. O dispositivo não está à venda em farmácias, somente pela internet. Sua única restrição de uso vale para quem ainda não teve relações sexuais, pois o hímen pode se romper na hora de introduzir ou retirar o copinho, e para as puérperas (mulheres que tiveram filhos há menos de 40 dias).

“Não existe um tipo de absorvente que seja universalmente melhor para todas as mulheres. É preciso considerar as características do absorvente, assim como o perfil do ciclo menstrual, as preferências e estilo de vida de cada mulher que irá utilizá-lo. É bom saber que existem opções que contemplem as necessidades de cada uma de nós”, salienta a dra. Renata.

Com todas essas vantagens, é de se estranhar que pouco se fale a respeito dos coletores. Por que um dispositivo relativamente barato, sustentável (o absorvente externo demora cerca de 100 anos para se degradar na natureza e o interno, mais ou menos um ano), que oferece baixo risco de infecções e mais liberdade à mulher é tão pouco divulgado?

Uma coisa é certa: para usar o coletor, a mulher precisa entrar em contato com o próprio corpo, tocá-lo, conhecê-lo, aceitá-lo. Em uma sociedade em que falar sobre o funcionamento e as necessidades do corpo feminino ainda é tabu, em que mesmo hoje em dia algumas meninas escondem até da mãe, mulher como elas, que menstruaram, é fácil entender por que pouco se fala sobre o dispositivo. Espera-se de nós, mulheres, que lidemos com a menstruação em segredo.

Devemos apoiar toda iniciativa que vise a dar mais liberdade e opção de escolha para a mulher. Cada uma tem um corpo, uma história, e quanto mais alternativas tivermos, melhor. Portanto, é hora de olharmos com mais carinho para elas. E para nós.


*Texto originalmente publicado no drauziovarella.com.br

quarta-feira, 24 de junho de 2015

As mulheres e o HIV


Logo que surgiu, no início da década de 1980, aids foi chamada de “peste gay” porque as pessoas pensavam, erroneamente, que a doença atingia apenas os homens homossexuais. Foi necessário pouco tempo para os cientistas demonstrarem que a doença era causada por um vírus, o HIV, e que sua transmissão se dava por via sexual e por sangue contaminado.

Como sabemos, as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) não se restringem a apenas um dos sexos, e logo começaram a surgir casos de mulheres infectadas pelo HIV. Hoje, segundo o Boletim Epidemiológico HIV-Aids, divulgado em 2015 pelo Ministério da Saúde, em 2013 a razão de sexo nas faixas etárias de 20 a 29 anos e de 30 a 39 anos foi de 2,2 e 1,9 casos em homens para cada caso em mulheres, respectivamente, com tendência significativa de aumento nos últimos dez anos.

Há algumas razões para o aumento do número de mulheres infectadas. O primeiro diz respeito à anatomia dos órgãos sexuais femininos, pois a vagina oferece uma superfície de contato mais extensa que o pênis. Além disso, sua mucosa é mais suscetível a feridas e fissuras que podem servir de porta de entrada para o HIV.

O fato de o vírus ser inicialmente associado aos homossexuais fez com que muitos heterossexuais, homens e mulheres, dispensassem o uso de preservativos, acreditando ser imunes ao vírus.

A submissão às regras estabelecidas pelos homens, que frequentemente rejeitam a camisinha, é mais uma razão para a alta prevalência do HIV no sexo feminino. Como boa parte das mulheres é financeira e emocionalmente dependente dos parceiros, não causa estranheza saber que muitas aceitam o sexo sem proteção.

A infidelidade masculina, socialmente aceita, também colabora para que muitas mulheres em relacionamentos estáveis estejam mais vulneráveis à contaminação.

Outro motivo é que a geração mais jovem, que não viveu sob o medo da epidemia de aids, em uma época em que não havia tratamento eficaz contra a doença, deixou de usar preservativo. Segundo o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), divulgado no ano passado, 40% das mulheres não usam camisinha.

A mulher que vive com o HIV enfrenta muitos problemas. Em geral, depende financeiramente do homem que a infectou ou precisa ganhar a vida para sustentar os filhos. O medo do desemprego e do desamparo, entre outros temores, é responsável pelo alto número de distúrbios de ansiedade e depressão entre as soropositivas.

As mulheres mais jovens, que ainda não têm filhos, precisam enfrentar o dilema da maternidade. Apesar de a transmissão vertical (de mãe para filho) hoje ser baixa, graças ao tratamento realizado durante a gravidez, muitas abrem mão da maternidade por medo de contaminar os filhos ou de não viver tempo suficiente para criá-los.

Quando encontram um novo parceiro, as moças solteiras se deparam com uma difícil escolha: revelar logo que têm o vírus ou contar mais tarde, caso se envolvam?

Na primeira hipótese é quase certo que o parceiro se afastará, e ela ainda correrá o risco de que ele revele a outras pessoas seu segredo. No segundo caso, será que o parceiro saberá compreendê-la ou se sentirá enganado?

Na dúvida, muitas optam pela abstinência sexual. E, com medo do preconceito, omitem de todos o fato de ter o vírus. Tomam medicamentos escondidas, mentem para ir ao médico, não revelam nem mesmo aos mais íntimos sua condição.

A ignorância dos que ainda associam o HIV e a aids à promiscuidade também faz com que as mulheres infectadas se escondam, com medo de ser julgadas.

Isolada e solitária, a mulher soropositiva vive a face mais cruel do HIV-aids: o preconceito.

*Texto originalmente publicado no www.drauziovarella.com.br

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Aborto legal


A criminalização do aborto divide o mundo em dois: a maioria dos países do hemisfério norte não trata o aborto como crime, e tem leis mais liberais em relação ao procedimento. Por outro lado, as leis de quase todos os países do hemisfério sul criminalizam o aborto na imensa maioria dos casos.

As leis restritivas, além de não impedirem que as mulheres abortem, tornam o aborto inseguro. Não à toa, 98% das 43 mil mortes anuais por abortamento no mundo ocorrem nos países em que o procedimento é considerado crime e é, por consequência, realizado de modo inseguro, sem as condições necessárias.

No Brasil, o aborto é permitido pelo Código Penal em duas situações: em caso de estupro e quando há risco de morte para a gestante. A partir de 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) deixou de considerar crime o abortamento em casos de anomalias fetais graves e incompatíveis com a vida extrauterina.

O médico Jefferson Drezett, diretor do Núcleo de Violência Sexual e Abortamento Legal do Hospital Pérola Byington (SP), apresentou um panorama do aborto legal, realizado nos casos previstos em lei, no seminário “A mídia e o aborto”, organizado pelo Grupo de Estudos sobre o Aborto (GEA) em março deste ano (assista ao vídeo aqui). O cenário não é nada animador.

Em 2013, foi sancionada a lei que obriga os hospitais do SUS a prestar atendimento emergencial, integral e interdisciplinar às vítimas de violência sexual. Apesar de não mencionar a palavra ‘aborto’, a lei garante os cuidados das lesões físicas, o amparo social e psicológico, a profilaxia de doenças sexualmente transmissíveis e da gravidez, entre outros direitos. Em último caso, a mulher pode interromper a gravidez forçada.

A realidade, no entanto, não é bem assim. Nem todos os hospitais garantem acesso a serviços de saúde voltados às vítimas de estupro, e poucos oferecem o abortamento seguro, realizado em condições de higiene e segurança e por equipe de saúde, nos casos previstos na lei.

Prova disso é que o hospital Pérola Byington, referência em atendimento de casos de violência sexual no país, já atendeu, desde sua fundação em 1994, mais de 35 mil casos de estupro, grande parte encaminhada de outros municípios, que não têm condições de atender as vítimas.

Em momento em que tramita na Câmara dos Deputados projeto de lei que visa a descriminalização do aborto, como garantir o abortamento legal e seguro nos casos previstos pela lei se os serviços de saúde do país sequer estão preparados para atender as vítimas de violência sexual?

Esse parece ser o desafio da maioria dos serviços de saúde e dos governos, que falham ao deixar a vítima de crime tão bárbaro à mercê da própria sorte.


*Texto originalmente publicado no www.drauziovarella.com.br

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Sedentarismo feminino



A pesquisa Vigitel (Vigilância dos Fatores de Risco e Proteção para Doenças), divulgada em abril deste ano pelo Ministério da Saúde, revelou alguns dados sobre a saúde dos brasileiros, entre eles que o número de pessoas acima do peso aumentou 23% nos últimos 9 anos. Isso se deve principalmente aos maus hábitos alimentares e ao sedentarismo, considerado o quarto principal fator de risco de mortalidade global.

Apesar de ainda muito sedentários, os brasileiros se exercitam mais hoje do que há 6 anos: a pesquisa apontou aumento de 18% no número de pessoas que praticam a quantidade de exercícios físico recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), 150 minutos por semana.

No entanto, ainda segundo a pesquisa, os homens são mais ativos fisicamente do que as mulheres: mais de 40% se exercitam durante seu tempo livre ante 30% das mulheres. Sabe-se, contudo, que as mulheres se alimentam melhor e procuram mais os médicos do que os homens, o que nos faz pressupor que elas se preocupam mais com a saúde.

Se é assim, por que, então, elas são mais sedentárias?

Embora na infância meninos e meninas sejam fisicamente ativos e estimulados a brincar, logo a menina aprende a restringir suas atividades, pois subir em árvore, jogar bola, lutar e correr são “brincadeiras de moleque”. Os exercícios físicos ficam, portanto, limitados às academias que poucas têm condições financeiras ou tempo para frequentar.

Outra pesquisa, denominada Trabalho remunerado e trabalho doméstico – uma tensão permanente e realizada pela organização recifense SOS Corpo – Instituo Feminista pela Democracia e pelos institutos Data Popular e Patrícia Galvão, revelou que 75% das 800 mulheres consultadas afirmavam enfrentar uma rotina exaustiva, enquanto 18% não sofriam desse problema e 7% não sabiam dizer.

Dentre as entrevistadas, 98% reportaram que além de trabalhar, ainda precisavam cuidar da casa. Dessas, 71% não recebiam ajuda masculina. A falta de tempo foi motivo de reclamação para 68% das consultadas, enquanto 58% declararam não ter tempo para cuidar de si. De cada 10 entrevistas, 6 dormiam menos de 8 horas por dia.

Além de hoje em dia boa parte das mulheres trabalhar fora, ainda cabe a elas os cuidados com a casa, com a alimentação da família e com os filhos.

Realmente, é difícil imaginar que uma mulher que trabalhe cerca de 8 horas por dia, sem contar o tempo gasto nos deslocamentos entre a casa e o trabalho, cuide dos afazeres domésticos e dos filhos ainda tenha tempo para praticar exercício físico.

O cenário, contudo, está mudando: cada vez mais as mulheres cobram a presença masculina na divisão de tarefas. Se antes os homens eram responsáveis pelo sustento da família, hoje essa incumbência também cabe à mulher. Nada mais justo, portanto, que eles passem a dividir os cuidados com a casa e com os filhos, permitindo que elas tenham mais tempo para cuidar de si.

Até quando permitiremos que a mulher negligencie sua saúde física e mental em nome dos outros apenas para não atrapalharmos a ordem patriarcal que concede aos homens o direito de se abster dos cuidados com a casa e os filhos?

*Texto originalmente publicado no www.drauziovarella.com.br

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Quem são as mulheres que abortam?

Desde que defendi abertamente a legalização do aborto, muitas mulheres, conhecidas ou não, passaram a me procurar para pedir indicação de médicos que realizem o procedimento com o mínimo de segurança. Não falo de duas, seis mulheres, mas de dezenas.

Sei que fenômeno semelhante ocorre com outras mulheres que, como eu, são favoráveis à descriminalização do aborto.

Fico pensando o que leva uma pessoa a procurar uma desconhecida para ajudá-la em momento tão delicado da vida, quem é ela, como veio parar nessa situação.

Segundo dados apresentados no seminário “Mídia e Aborto”, organizado em abril deste ano pelo Grupo de Estudos sobre o Aborto (GEA), uma em cada cinco mulheres de 40 anos já abortou. 

O perfil das mulheres que me procuram é variado: são moças casadas, solteiras, com parceiro fixo ou não, muito jovens, mais velhas, ricas, pobres, com ou sem filhos, brancas, negras, religiosas ou não. Em comum, todas trazem consigo o medo e uma vulnerabilidade extrema. A imensa maioria está sozinha, quando muito conta com o apoio de uma amiga ou do parceiro.

Portanto, com base nos dados e na minha experiência e na de outras pessoas que ousam falar sobre aborto, afirmo sem a menor dúvida que essas mulheres não são as outras, como gostamos de imaginar, mas, ao contrário, somos todas nós.

Elas poderiam confiar em um médico que as amparasse e acolhesse, que lhes desse informações seguras sobre como proceder diante de uma gravidez indesejada, que lhes apresentasse todos os caminhos possíveis e, eventualmente, as acompanhasse durante e depois do procedimento, indicando-lhes como agir no futuro para que não engravidassem sem querer novamente.

Todavia, na falta de opção, recorrem a amigas e desconhecidas em quem, imaginam, podem confiar e encontrar o mínimo de apoio.

Sugiro, aqui, que façamos um exercício e nos coloquemos por um minuto apenas no lugar dessas mulheres.

Por descuido ou acaso, você engravidou, mas não deseja ou não pode seguir com a gravidez. Você não tem recursos, não tem parceiro fixo, acha que ainda não tem idade suficiente para arcar com um filho, não importa o motivo que a levou a não desejar a gravidez, você não quer ou não pode seguir adiante.

O que fazer? A quem procurar? Como o aborto é crime, você será considerada criminosa se buscar um hospital ou serviço de saúde para pedir ajuda.

A você, então, só resta procurar amigos e familiares. Nem todas, porém, podem contar com uma rede de apoio, por motivos variados.

Sozinha, você vai atrás de informações por conta própria, e nesse processo tudo pode acontecer. Sem orientação de um especialista, que você não sabe onde encontrar e talvez nem tenha dinheiro para pagar, você reza para não morrer.

Sei que muitos vão dizer: “então por que fez sexo se não pode arcar com as consequências?”. Bom, então deveríamos tratar desse modo quem contrai sífilis, gonorreia, HPV e outras doenças sexualmente transmissíveis. Afinal, contrair uma DST é um risco que todos que fazem sexo correm, mas apenas uma minoria, creio, deseja que as pessoas não tenham direito a um tratamento médico decente.

No entanto, condenamos milhares de mulheres aos riscos que um aborto inseguro implica. Não lhe oferecemos nenhuma alternativa, nenhum tratamento, nenhum amparo.

A verdade é que, assim como contrair uma DST, engravidar é um risco de quem faz sexo. E da mesma forma que uma pessoa não deve ser punida e esquecida porque contraiu uma doença, seja ela qual for, uma mulher que não deseja a gravidez também não deve ser abandonada à própria sorte.

A ideia de que as mulheres devem ser castigadas porque fazem sexo por prazer é tão antiga que é difícil acreditar que ainda nos deixemos levar por ela. Pior, que estruturemos nossa sociedade e nossos valores com base nela.

O Estado que não oferece serviço médico a mulheres que engravidam sem desejar não cumpre seu papel, pois é sua obrigação garantir acesso à saúde e aos direitos reprodutivos da mulher. E se o Estado falha, falhamos todos ao aceitar sua omissão.