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quinta-feira, 6 de abril de 2017

A pílula anticoncepcional é segura?

A primeira pílula anticoncepcional foi lançada no mercado em 1960. Em sua composição, havia doses altas de hormônios que causavam efeitos colaterais desagradáveis e potencialmente perigosos à saúde da mulher. Por outro lado, a pílula representou um avanço importante nos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, que pela primeira vez na história puderam controlar sua sexualidade e sua vida reprodutiva com mais eficácia e a custos mais baixos.

No entanto, no início, as primeiras mulheres que fizeram uso da pílula não foram bem informadas acerca dos riscos do medicamento, e movimentos feministas, principalmente nos Estados Unidos e Europa, passaram a pressionar a indústria farmacêutica para que estudasse e divulgasse nas bulas e entre a comunidade científica os possíveis riscos do uso contínuo da pílula anticoncepcional.

Muitos anos se passaram desde então, e hoje há várias pílulas no mercado, a maioria com doses bem mais baixas de hormônios. Por exemplo, algumas contêm 15 microgramas de estrogênio, dose dez vezes mais baixa que a primeira pílula lançada no mercado, que continha 150 microgramas do hormônio.


Leia também: Coletor menstrual: Por que não falamos dele?

Seus efeitos adversos e riscos também são bem reconhecidos e conhecidos, já que a pílula vem sendo estudada há mais de 55 anos. Como todo medicamento, ela apresenta contraindicações e riscos a alguns grupos de pessoas. Exatamente por isso, o ideal seria que todas as mulheres passassem por consulta médica antes de adotar um método anticoncepcional e que depois fossem acompanhadas para avaliar os riscos e benefícios individuais do método de escolha.

Mulheres com histórico familiar de trombose venosa e embolia pulmonar, com doenças cardíacas, hipertensão, diabetes, obesidade, distúrbios alimentares e tabagistas devem buscar outro método anticoncepcional, pois essas condições, somadas ao uso da pílula, aumentam o risco de desenvolver trombose venosa, doença potencialmente grave causada pela formação de coágulos (trombos) no interior das veias profundas. Para as demais mulheres, contudo, o risco de desenvolver trombose com o uso de pílula anticoncepcional de baixa dosagem é muito pequeno.

Todavia, recentemente, diversos casos da doença foram associados ao uso do medicamento e divulgados na internet, levando medo às mulheres que adotam o método anticoncepcional. Por causa do temor de desenvolver a doença, meninas jovens abandonaram o método e passaram a adotar outros cuja taxa de falha é muito alta: o coito interrompido e a tabelinha, muitas vezes com o auxílio de aplicativos para celulares.

Se considerarmos que muitas meninas iniciam a vida sexual ao redor dos 14 anos e têm acesso apenas a contraceptivos de barreira (camisinha e diafragma, por exemplo) e hormonais (injetáveis e orais), é possível supor o quão perigosa pode ser a difamação da pílula.

“Em 2014, houve 28.244 nascidos vivos de mães de 10 a 14 anos e 534.364 nascidos de meninas de 15 a 19 anos. A cada 19 minutos, uma menina de 10 a 14 anos se torna mãe no Brasil. São números muito altos”, explica a médica ginecologista Albertina Duarte Takiuti, coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente do Estado de São Paulo e coordenadora de Políticas Públicas para Mulher do Estado de São Paulo, citando dados do Datasus.

A médica alerta, também, para a importância da dupla proteção (preservativo associado a um método anticoncepcional) nas relações sexuais para evitar as doenças sexualmente transmissíveis e a gravidez indesejada.

“Vejo meninas que não usam a pílula porque não querem tomar hormônio, mas depois acabam recorrendo à pílula do dia seguinte. O que elas não sabem é que assim elas estão ingerindo metade da dosagem hormonal contida em uma cartela de pílulas de baixa dosagem em um único dia”, relata a médica. “A pílula do dia seguinte é um recurso importante para evitar a gravidez indesejada, mas não deve ser usada com frequência.”

A dra. Albertina reforça que é importante que a mulher “se sinta bem com o método anticoncepcional escolhido”, e que tenha possibilidade de relatar ao médico qualquer efeito desagradável que venha a sentir. A supervisão médica é importante exatamente para que essas pacientes sejam acompanhadas.

Quem faz uso de contraceptivos hormonais sem indicação e supervisão médica deve procurar um médico caso tenha efeitos adversos, procedimento recomendado durante o uso de qualquer medicamento.

A mulher deve ter direito de escolher o método anticoncepcional mais adequado para si. Para isso, precisa estar bem informada e orientada acerca do funcionamento do seu corpo e dos riscos e benefícios dos métodos disponíveis.

Nesse contexto, a pílula anticoncepcional, associada ao preservativo, pode ser um método seguro e de extrema importância para que a mulher possa exercer sua sexualidade com segurança e liberdade.


*Texto originalmente publicado no site "Drauzio Varella"

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Odor vaginal: por que ainda o tememos?

Muitas mulheres têm vergonha e dificuldade em aceitar que a vulva tem odor característico. Assim, valem-se de uma infinidade de produtos e medidas para disfarçá-lo, podendo, com isso, comprometer a saúde ginecológica.

A dra. Renata Lopes Ribeiro, médica assistente da Clínica Obstétrica Fetal do Fleury e da Maternidade São Luiz, ambas em São Paulo, esclarece as principais dúvidas sobre o tema:


1) Toda vagina tem odor? Por que ele ocorre?
A vagina elimina naturalmente secreções e odores resultantes do processo fisiológico de renovação celular, por isso toda mulher tem secreção e odor vaginal. Na maioria das vezes, esse odor é suave, pouco perceptível e pode mudar de intensidade e característica de acordo com as fases do ciclo menstrual.

2) Como saber se o odor vaginal indica a presença de algum processo infeccioso?
É muito importante que as mulheres saibam que toda vulva tem um cheiro natural característico, e que não há nada de errado nisso. Porém, o odor vaginal pode indicar infecção caso mude suas características habituais, fique muito intenso e esteja acompanhado de outros sintomas como coceira, ardência, corrimento vaginal (especialmente de coloração amarelada ou esverdeada) ou incômodo ou dor durante a relação sexual. Nesses casos, os sintomas podem indicar um desequilíbrio na flora vaginal e a presença de processos infecciosos que podem precisar de tratamento ginecológico.

3) O que fazer na presença desses sinais e sintomas?
Esses são sintomas de alerta, por isso é recomendado que, na sua presença, a mulher procure um ginecologista para avaliação. Corrimento e odor forte podem indicar desde infecções mais leves, causadas por fungos e bactérias que se proliferam quando há um desequilíbrio da flora vaginal, até doenças sexualmente transmissíveis, como clamídia e gonorreia. Menos comumente, esses sintomas surgem devido à retenção de objetos, como absorvente íntimo ou camisinha, no interior da vagina.

4) As duchas vaginais são indicadas para a higiene vaginal? Por quê?
Para eliminar o odor vaginal e se sentir mais limpas, algumas mulheres recorrem às duchas vaginais com os mais diferentes produtos. Porém, elas não são recomendadas, uma vez que podem alterar a flora vaginal, atrapalhando a defesa do organismo, além de favorecerem a ascensão de micro-organismos de fora para dentro da vagina. Também podem, dependendo da intensidade, causar microlesões na mucosa vaginal.

5) O uso de sabonetes e lenços íntimos é recomendado para a higiene íntima?
Os sabonetes íntimos normalmente possuem pH mais ácido (entre 4,5 e 5,5), que se assemelha ao pH vulvar, e são hipoalergênicos. São dispensáveis, ou seja, não são necessários para realizar a higiene íntima adequada. No entanto, algumas mulheres se sentem bem ao usá-los, e podem fazê-lo desde que não os utilizem mais de uma vez ao dia, pois seu uso excessivo pode remover a proteção local e desidratar a pele e a mucosa vaginal.

O uso de lenços íntimos, por sua vez, pode ser um recurso útil quando a mulher não estiver em casa, mas é importante evitar ficções intensas e o uso demasiado.

6) O absorvente diário (protetor de calcinha) ajuda a evitar o odor vaginal?
O uso de absorvente diário é um hábito relativamente comum entre as mulheres, para evitar que a secreção vaginal fique na roupa íntima. Porém, essa prática dificulta a ventilação da área íntima e favorece a multiplicação de bactérias e fungos, portanto deve ser evitada.

7) Como higienizar a região íntima corretamente?
A higienização da vulva (região externa) deve ser feita uma vez ao dia durante o banho, sem fricções intensas, com água e sabonete neutro, durante um a três minutos. Dê preferência a sabonetes sem muita atividade detergente, sem perfume exagerado e que não tenham pH muito ácido. Os sabonetes de glicerina são uma boa opção. Sabonetes com muitos produtos químicos podem predispor a reações alérgicas. Evite, também, o uso de buchas e esponjas.

A higiene excessiva pode piorar o odor vaginal, pois remove a proteção natural local, predispondo a infecções e reações alérgicas.

8) Algumas mulheres reclamam de odor forte durante a menstruação. Como evitá-lo?
A higiene íntima não precisa ser alterada durante o período menstrual. No entanto, é preciso trocar os absorventes internos ou externos com frequência, pois se o tempo de troca não for respeitado, o sangue se acumulará no absorvente, podendo ocasionar mau cheiro.

9) Roupa justa ajuda a intensificar o odor vaginal? Qual a roupa íntima mais indicada?
A roupa muito justa dificulta a circulação de ar no local, o que predispõe ao acúmulo de fungos e bactérias que podem favorecer infecções e causar odor desagradável. Prefira roupas mais largas e opte por calcinhas de algodão.

10) É comum o odor diferir de uma mulher para outra? O que é possível fazer para reduzir o odor mais intenso?
Certas características individuais podem fazer com que algumas mulheres tenham um odor mais intenso, tais como: 1) transpiração excessiva: nesse caso, recomenda-se a troca mais frequente de roupa íntima e que se dê preferência para peças de algodão; 2) obesidade: as dobras da pele podem acumular secreções, pois isso é indicado que se dê atenção especial a essas áreas, mantendo-as sempre limpas e secas; e 3) alimentação: algumas mulheres relatam mudança no odor vaginal quando ingerem alimentos como determinados peixes, alho ou certos suplementos. No entanto, isso é pouco comum e basta evitar o consumo desses alimentos para que o odor volte às suas características habituais.

Sexo Oral
Se toda mulher tem odor na região íntima e essa é uma característica natural e fisiológica, por que tantas mulheres não se sentem à vontade durante o sexo, especialmente por terem vergonha do próprio cheiro?

Um número muito alto de mulheres desconhece o próprio corpo e sua sexualidade. A pesquisa Mosaico 2.0, divulgada em 2015 e coordenada pela psiquiatra Carmita Abdo, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), entrevistou 3 mil pessoas entre 18 e 70 anos de sete regiões metropolitanas do país. Os dados revelam que 40% das mulheres não têm o hábito de se masturbar e 19,5% nunca o fizeram. Já entre os homens, apenas 17,3% não praticam a masturbação habitualmente.

Assim, não é surpresa que 44,4% das mulheres relatem algum grau de dificuldade em atingir o orgasmo e que sejam comuns as queixas de falta de libido nos consultórios médicos.

Por que isso ocorre? A resposta é simples: a desigualdade de gênero, comum à nossa cultura, limita a expressão da sexualidade feminina, que historicamente sempre foi reprimida.

Sem se conhecer nem saber o que de fato lhe dá prazer, como as mulheres podem se aceitar e desenvolver todo o potencial da sua sexualidade, ainda mais considerando que muitas sequer se julgam merecedoras do prazer sexual?

As meninas aprendem desde cedo que se tocar é algo feio e sujo, que deve ser evitado. Os adultos não costumam conversar com elas sobre a importância do prazer sexual e como é possível chegar a ele. Portanto, elas crescem sem estabelecer uma relação de intimidade com o próprio corpo.

Na vida adulta, a desigualdade entre homens e mulheres chega à cama. Elas temem ser julgadas por determinadas atitudes e comportamentos, o que limita o prazer sexual. São poucas as que conseguem expressar suas vontades e desejos com naturalidade, assim como são raros os homens dispostos a atendê-los.

Portanto, ainda é comum que a mulher e a vagina sejam vistas apenas como meios de dar prazer ao homem e trazer os filhos ao mundo. O órgão sexual feminino é tido como feio, desconhecido, algo que não deve ser encarado e aceito. A enorme quantidade de produtos que prometem diminuir e disfarçar o odor vaginal à disposição nas farmácias e drogarias são a prova de que a sociedade ainda não sabe lidar e aceitar o corpo feminino.

Outra pesquisa realizada em 2015 no estado de São Paulo, essa pela empresa Sex Wipes, com 1.252 homens heterossexuais e sexualmente ativos de 18 a 30 anos, revelou que 43% (4 em 10) não realizam sexo oral nas parceiras, embora 78% afirmem receber. Dos que o praticam nas companheiras, 35% dizem não gostar de fazê-lo. O motivo? Nojo: da aparência, do cheiro e da umidade da vulva.

Não há explicação lógica para alguém sentir nojo da pessoa que o atrai sexualmente que não envolva aspectos culturais machistas que nos distanciam, homens e mulheres, do corpo e da sexualidade feminina.


*Texto originalmente publicado no site Drauzio Varella

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Mães meninas

As meninas mais pobres têm maior risco de engravidar do que as mais ricas. É o que revela a pesquisa Pense 2015 (IBGE), feita com estudantes do 9° ano do ensino fundamental de todo o país.

Os dados mostram que 27,5% (723,5 mil) dos alunos do 9° ano, que têm em média 14 anos de idade, já mantiveram relações sexuais: 36% dos meninos e 19,5% das meninas.

Das meninas que fizeram sexo, 9% declararam ter engravidado alguma vez, o que representa 23.620 meninas. Dessas, a maioria cursava a rede pública (9,4%). Apenas 3,5% das meninas que já engravidaram frequentavam a rede privada de ensino.

Mas por que as meninas de classes sociais menos favorecidas ainda engravidam mais do que as de classe média e ricas, se quase 90% dos alunos afirmaram receber informações sobre gravidez e saúde sexual? A resposta é simples: informação por si só não é suficiente.


Leia também: Elas não usam camisinha
Em primeiro lugar, pensemos apenas no que oferecemos às meninas e deixemos os rapazes de lado, pois é sabido que os homens, tanto os mais ricos quanto os mais pobres, em geral se importam pouco com a contracepção, embora essa devesse ser tarefa de todos, homens e mulheres.

Proporcionamos às mais ricas uma educação de melhor qualidade, que lhes permite criar expectativas em relação ao futuro, além de mais oportunidades. Assim, sonhos e planos como viajar, entrar em uma faculdade, conhecer outros lugares e pessoas e aprender novas habilidades quase sempre antecedem o desejo da maternidade.

Quando essas meninas entram em idade fértil, conversamos com elas sobre sexo e as levamos ao ginecologista, que passa a acompanhá-las com frequência e a orientá-las na escolha do melhor método anticoncepcional, a que certamente terão acesso.

Se os anticoncepcionais por acaso falharem, pagamos-lhes o aborto em clínicas onde podem contar com médicos que lhes garantam segurança. Para as mulheres de classe social mais alta, a criminalização do aborto pode ser resolvida com dinheiro.

As meninas mais ricas não se sentem socialmente pressionadas a engravidar; suas amigas não têm filhos e a elas são oferecidos vários papéis sociais que não o de mãe.

Com um ou mais filhos nos braços, as meninas de classes sociais mais baixas que mal saíram da infância não conseguem dar seguimento aos estudos, tampouco melhorar as condições de vida da família. Acabam destinadas a serviços mal remunerados, de onde tiram o sustento dos filhos, muitas vezes sem nenhum apoio.

Para as mulheres de classes mais abastadas, a maternidade é, na maioria das ocasiões, uma escolha e não um destino do qual não se pode fugir. Por que aceitamos condenar as mais pobres a uma realidade que evitamos para nossas filhas?


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Homens e a mania dos nudes sem consentimento

Imagine que você tenha acabado de acordar e de tomar café da manhã e esteja aproveitando os únicos minutos de folga que terá no dia para dar uma olhada nas mensagens do Facebook. De repente, percebe que recebeu uma mensagem de um desconhecido. Mais curiosa do que receosa, clica nela. Então, eis que surge em sua tela do computador um pênis ereto com a legenda “Oi, gata, vamos conversar?”.

Agora suponha que você esteja solteira há algum tempo e tenha cedido aos convites de amigos para entrar no Tinder, aplicativo que facilita encontros entre as pessoas. Você não curte muito a ideia, até ‘conhecer’ um rapaz que lhe parece interessante. Vocês trocam mensagens cujo conteúdo parece saído de uma festa de adolescentes: um gracejo sem jeito aqui, uma pergunta sobre a profissão acolá. Despedem-se sem grande entusiasmo. Dois dias depois, ei-la: a foto do pinto. Sem aviso prévio, sem pedido, sem intimidade que possa ter tornado possível a ousadia.

Essas duas histórias aconteceram com amigas minhas, mas são inúmeros os casos de mulheres que reclamam de homens, a maioria estranhos ou apenas conhecidos, que mandam fotos de pênis sem a menor cerimônia. É tão frequente que já virou piada entre as mulheres.

Sempre me surpreendi com a admiração e o orgulho que os homens sentem pelo seu órgão sexual. É uma verdadeira adoração, quase um culto, a ponto de não se constrangerem ao mandar fotos do dito-cujo a desconhecidas que nunca sequer lhe dirigiram a palavra. Tem que ter muita autoconfiança, né?

Desconfio, inclusive, que Freud tenha criado sua teoria sobre a inveja que as mulheres teriam do pênis ao receber uma bronca de uma senhora que não gostou de ver o órgão do médico aparecer sem ser convidado, fazendo o famoso psicanalista pensar: "Ah, não curtiu ver um pinto surgir aleatoriamente na sua frente? Isso porque as mulheres são recalcadas, têm inveja do nosso membro forte e viril!"

Brincadeiras à parte, assim como conheço inúmeras mulheres que recebem essas fotos, não sei de uma sequer que ache isso legal. Porque, sim, algumas de nós (surpresa: não todas!) gostam de pinto, mas do cara de quem elas estão a fim ou pelo menos têm algum interesse sexual. Mandar fotos íntimas tem a ver com aquela palavrinha mágica que muitos homens fazem questão de ignorar: consentimento.

Não consigo deixar de pensar no intuito da foto. Por acaso esses homens acham que alguma mulher vai olhar para ela e dizer: “Ah, que pinto lindo, vou convidar o dono para sair”? Se a estratégia dá certo, desconheço. De todo jeito, posso afirmar que nunca a vi funcionar.

Acredito que certos homens façam isso para afirmar poder. Usam o falo para intimidar, para mostrar que dominam, não para atrair. Além de exibir um enorme desconhecimento da sexualidade humana, que envolve muito mais do que órgãos sexuais, eles parecem dizer: “Vejam como sou viril, macho e poderoso, tenho pinto!”.

Se as mulheres fossem vingativas, exporiam esses homens na internet. Talvez fosse o único modo de constranger os rapazes e impedi-los de continuar a nos incomodar. Por outro lado, era capaz de eles gostarem e começarem a mandar mais fotos. Não sei.

Então, peço encarecidamente: guardem o pau para momentos de intimidade ou pelo menos deixe para exibi-lo quando lhe solicitarem. Por mais orgulho que você tenha dele, ninguém quer começar o dia com sua afirmação de macheza e poder em forma de falo. Quando quisermos, a gente avisa.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Amores e montanhas

Que não existe só uma maneira de se relacionar afetivamente, acho que a maioria das pessoas, principalmente as mais jovens, concorda. Os seres humanos são diversos, assim como seus desejos e sentimentos. Pensar que há apenas um modelo que dê conta de todo mundo é, no mínimo, muita inocência.

Foi-se o tempo em que somente a relação heternormativa e monogâmica era a única possibilidade. Hoje as opções, ainda bem, são mais amplas. Existem muitos modelos de relacionamento possíveis, e cada um pode escolher como e com quem quer se relacionar amorosamente. No entanto, essa liberdade de escolha não é, de fato, uma possibilidade real para todas as mulheres.

Educadas e ensinadas a acreditar no amor romântico e a esperar mais dos homens do que de si mesmas, as que percebem que estão embarcando em uma furada ao buscar um relacionamento amoroso que satisfaça todas suas necessidades vivem um dilema: como ir contra tudo aquilo que a sociedade espera delas sem as ferramentas necessárias?

É como se de repente dissessem a um grupo de crianças: “Olha, vocês não precisam brincar só de casinha, podem escalar montanhas também, só que não vamos lhes dar o equipamento e o treino necessários”. A maioria vai preferir a velha casinha, que embora não seja lá essas coisas, pelo menos é segura e conhecida; as que se aventurarem na montanha provavelmente vão se machucar feio.

Para se relacionar com o outro em pé de igualdade, é preciso admitir seus limites, seus desejos, suas expectativas. É necessário, acima de tudo, aceitar-se e respeitar-se, conhecer, gostar e confiar em si, e isso não ensinam às mulheres. Ao contrário, ensinam-nos a buscar a felicidade no outro: no parceiro ideal, no marido perfeito, nos filhos que virão, na família a quem deveremos dedicar a vida.

As diversas possibilidades hoje disponíveis, sem os meios necessários para vivê-las em sua plenitude, tornam-se, portanto, uma armadilha perigosa.

O resultado é que muitas mulheres continuam à mercê dos parceiros, mesmo que vivenciando modelos de relacionamento diferentes. São eles que dão o tom. Porque o problema não está nos modelos, apenas, mas no fato de que às mulheres não são dadas as oportunidades de desenvolver e expressar seus desejos.

A verdadeira liberdade não consiste apenas em oferecer possibilidades, mas em fornecer ferramentas para que todos e todas tenham condições de dela desfrutar. Qualquer coisa fora disso é migalha, um arremedo de liberdade. E uma cilada para os incautos.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Aborto e Igreja

O novo ministro da Saúde, Ricardo Barros, reconheceu, em entrevista à edição de hoje (17/05/16) do jornal “O Estado de São Paulo”, que é preciso discutir com urgência a questão do aborto, e que vai “estudar com muito carinho” o tema. Seria uma postura digna de elogios, se em seguida o ministro não afirmasse que quer conversar com a Igreja antes de traçar diretrizes para agir.

Não pretendo entrar no mérito da questão do aborto, até porque já escrevi várias vezes sobre a importância da sua descriminalização aqui e em outros veículos. Meu ponto é: por que diabos um ministro da Saúde pretende chamar a Igreja para tratar de um tema de saúde pública? Por que não ouvir médicos, profissionais da saúde e estudiosos do assunto?

A resposta parece bastante óbvia: como já conhecemos o posicionamento da Igreja quanto ao aborto, é claro que o ministro, ao dizer que vai escutar a Igreja, isenta-se da responsabilidade de enfrentar a questão. Aliás, ele não será o primeiro a fazê-lo. Até onde sei, o único ministro da Saúde que teve coragem de aceitar discutir o tema de verdade, sem subterfúgios, foi o ex-ministro José Gomes Temporão, que ocupou o cargo entre 2007 e 2011. Mesmo assim, enfrentou sérias resistências no governo e não conseguiu avançar o debate.

Para além dessa questão, o que me parece essencial discutir é se queremos mesmo que a Igreja Católica e outros grupos religiosos continuem impondo condutas para além de seus fiéis. Até quando grupos religiosos seguirão, com aval de representantes políticos, se intrometendo nos direitos dos cidadãos e cidadãs?

Não tenho nada contra quem queira seguir os dogmas da Igreja ou de qualquer religião, só não aceito que eles sejam impostos a mim, e o Estado laico me garante esse direito. É tão difícil entender?

Apesar de boa parte da sociedade não se interessar pela opinião dos religiosos acerca do casamento gay, do aborto, da discussão sobre gênero nas escolas e de outras questões, poucos são os políticos que ousam enfrentar os grupos religiosos. Preferem ignorar os que sofrem com os desmandos da Igreja do que afrontá-la.

Será que ainda veremos um governo, qualquer que seja ele, dizer em alto e bom som para os religiosos que eles não podem opinar no modo como as pessoas que não lhes dão importância devem viver?


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Intolerância de gênero

Quando frequentei o ensino fundamental e médio, ninguém tratava com profundidade questões como gênero e sexualidade. Até se falava em sexo nas aulas, mas sempre do ponto de vista biológico. Também pouco se discutiam temas relevantes a outras etnias ou minorias, e toda vez que isso ocorria, fazia-se a partir de uma visão etnocêntrica, masculina, heterossexual, cisgênera e branca. Aqueles que pertenciam a outras categorias (mulheres, negros, indígenas, homossexuais, travestis, enfim, o “resto”) eram, quando muito, apenas mencionados, afinal nem sempre é possível esconder as pessoas embaixo do tapete.

Ainda bem que os tempos mudaram, dirão alguns. Passaram-se anos (nem tantos assim) desde que me sentei pela primeira vez à mesa da escola. Hoje, minhas filhas o fazem, o que despertou ainda mais meu interesse pelas discussões sobre os Planos Nacional e Estadual de Educação, que traçam diretrizes para o ensino no país.

Pois bem. Se é verdade que na atualidade as ditas minorias estão representadas em movimentos sociais e políticos e em grupos nas redes sociais, também é fato que há enorme resistência para tratar nas escolas os temas propostos por pessoas que não se enquadram na descrição dos “homens do poder”.

Políticos, religiosos e lobbystas se organizaram para exigir que não se discutam metas de combate à desigualdade de gênero, à discriminação racial e de orientação sexual no Plano Nacional de Educação. E estão se saindo muito bem, como temos visto recentemente. Assim como aconteceu comigo anos atrás, as crianças e adolescentes de hoje continuarão engolindo a versão masculina, heterossexual, branca, cristã e cisgênera da nossa história. Como toda versão única, ela é limitada e parcial, pois não abarca todas as realidades e deixa de fora questões de máxima importância para a sociedade, ainda mais se considerarmos que somos o país que mais mata transexuais no mundo e o quinto colocado em casos de violência contra a mulher.

O que pensam as mulheres cisgênero sobre isso? Não interessa. E as mulheres e homens trans? Tampouco. Homossexualidade, então, não deve ser sequer mencionada. A desculpa dos nobres senhores é que tratar essas questões em sala de aula dá espaço para a temida - atenção agora - ideologia de gênero. Buuuu.

Mas o que seria essa ideologia e por que ela assusta tanto os distintos? Ela é, antes de tudo, uma mentira inventada para impedir a discussão de questões de gênero e igualdade nas escolas. Ao combater a ideia (errada, diga-se) de que gênero é determinado biologicamente e 
negar que identidade de gênero deve sempre “bater” com o órgão sexual com que nascemos, como se fôssemos definidos por um pênis ou uma vagina, estaríamos colocando a família e a ordem social em perigo.

Além de extremamente limitante, essa noção de determinismo biológico está errada. Existem, por exemplo, pessoas que nascem com pênis e se identificam com o gênero feminino. E o que elas são? No caso, mulheres. Qual o problema de se ensinar isso às crianças? Por acaso aprender a realidade lhes oferece perigo? É melhor mentir para manter uma ordem social hipócrita?

Para mim, está bastante claro: o medo de certos religiosos e pessoas que são referência normativa da sociedade, como bem salientou a cientista social Maíra Kubík Mano, no artigo de hoje para o blog “Agora é que são elas”, é perder os privilégios que os brancos, ricos, heterossexuais e cisgêneros têm sobre os demais. Apenas isso.

O único risco que nossas crianças correriam caso passássemos a lhes ensinar que há outras narrativas, outras possibilidades e outras vivências e que é preciso considerá-las e respeitá-las para construirmos uma sociedade mais igualitária é fazê-las pensar e questionar. E isso, meus amigos e amigas, é um perigo para a estrutura dominante.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Elas não usam camisinha


As meninas não usam camisinha. Ou melhor, até usam, mas em geral quando os meninos impõe. E eles, sabemos, não curtem muito preservativo.

Diversas pesquisas revelam que as adolescentes relutam em exigir o uso da camisinha nas relações sexuais. E há vários motivos para isso.

A adolescência é um período de incertezas e descobertas. As mudanças físicas, psicológicas e comportamentais pelas quais os jovens passam nessa fase são intensas. Se iniciar a vida sexual é difícil para os meninos, criados para serem machos e viris, imaginem para as meninas, ensinadas a controlar e por vezes negar a própria sexualidade.

Leia também: O desamparo das mulheres com zika


O resultado é que 40% das meninas entre 14 e 25 anos não usam preservativos. Um terço dessas jovens (32%) já engravidou; 12,4% sofreram abortamento espontâneo ou provocado. (Fonte: II Lenad, 2012.)

As mulheres, além do risco de engravidar, são mais suscetíveis, por questões anatômicas, a contrair doenças sexualmente transmissíveis nas relações heterossexuais. E o risco de gerar outra vida é, muitas vezes, assumido apenas pelas meninas, que têm de se virar para conseguir abortar ou criar o filho do rapaz que se nega a usar preservativo.

Não à toa, a infecção pelo HIV vem crescendo entre as adolescentes de 13 a 19 anos. Desde 1998, o número de meninas infectadas pelo vírus supera o de meninos (Fonte: Ministério da Saúde, 2007).



Sabemos que as meninas são criadas de maneira diferente dos meninos. Enquanto estes são estimulados a praticar sexo desde muito novos, elas aprendem que não devem demonstrar desejo. Essa diferença, é claro, também aparece mais tarde, na hora de exigir a camisinha.

Como esperar que a jovem, depois de aprender que é preciso esconder seus desejos sexuais e ser cordata e submissa, de repente passe a se impor e exigir o uso de preservativo? Como querer que ela seja responsável se não lhe damos ferramentas para que exerça a liberdade sexual de que vai dispor no futuro?

As meninas só vão se proteger se sentirem-se seguras e valorizadas. Para isso, precisamos falar de sexo com elas desde cedo, ensinar-lhes que se respeitar não é negar seus desejos nem seguir uma cartilha de comportamentos e sim saber estabelecer relações saudáveis, em que suas vontades sejam acatadas.

É necessário que entendamos, de uma vez por todas, que as meninas também têm desejos e que, de uma forma ou de outra, eles serão expressados. Resta saber em que condições queremos que isso aconteça.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 8 de março de 2016

O que querem as mulheres

Todo 8 de março é a mesma coisa: canso de ouvir frases como: “Mas dia da mulher é todo dia”, “Se tem um dia da mulher, por que não tem um dia do homem?”, ou ainda “Parabéns pelo seu dia”. É preciso entender o sentido da data. Esse não é um dia de celebração, mas de exigir direitos. Tentar transformá-lo em uma data comemorativa como o Dia dos Namorados e encher as mulheres de flores e bombons é esvaziar seu significado e destitui-lo de importância.

O Dia Internacional da Mulher serve para lembrar as desigualdades de gênero, tão comuns no Brasil e no mundo e para aproveitar espaços e discutir essas disparidades. A data foi reconhecida pela ONU na década de 1970, mas avançamos pouco desde então, no que diz respeito a direitos.

Embora nem todas as mulheres concordem sempre, algumas reivindicações são compartilhadas por quase todas as mulheres que desejam viver em uma sociedade mais igualitária:

1) FIM DAS VIOLÊNCIAS
A cada 1:30 hora, uma mulher morre de causa violenta no país (IPEA). Pelo menos 4 mulheres foram assassinadas por dia pelos parceiros ou ex-parceiros em 2013 (Mapa da Violência 2015). Em 2014, 405 mulheres sofreram violência por dia e precisaram de atendimento no SUS (MdV), sendo que quase 68% dos casos foram cometidos por parentes imediatos ou parceiros/ex-parceiros.

Os dados servem para ilustrar aquilo que já sabemos: as mulheres são as principais vítimas de violência doméstica. Além desse tipo de agressão, somos assediadas nas ruas, no trabalho, nos meios de transporte, em locais públicos e privados. Foram 47 mil ocorrências de estupro denunciadas (atenção para isso, pois sabemos que esse é um dos crimes em que há mais subnotificações) apenas em 2014 (Fórum Bras. de Segurança Pública).

Ainda estamos engatinhando n
a prevenção e na punição dos casos de violência contra a mulher e no acolhimento e tratamento, quando é o caso, das vítimas. Hoje o sentimento mais comum quando se conversa com as mulheres sobre violência é um só: medo.

2) GARANTIA DOS DIREITOS SEXUAIS E REPRODUTIVOS
Queremos direitos que nos permitam viver a própria sexualidade com prazer e liberdade. Para isso, precisamos de educação sexual nas escolas, acesso a métodos contraceptivos, orientação sexual e cuidados com a saúde em postos, unidades de saúde e hospitais.
Queremos ter direito ao planejamento familiar, que inclui a descriminalização do aborto. A mulher que decide abortar precisa ser amparada. 
Uma em cada cinco mulheres já abortou (PNA). É correto deixar milhares de mulheres abandonadas à própria sorte? Até quando vamos ignorar o fato de que são as mulheres pobres que morrem em procedimentos mal feitos?

3) EQUIDADE SALARIAL E DIVISÃO DO TRABALHO DOMÉSTICO
Mulheres ganham 68% do salário dos homens (Fórum Econômico Mundial); 90% das mulheres realizam tarefas domésticas, que incluem o cuidado com os filhos, enquanto 40% dos homens desempenham as mesmas atividades (Unicamp).Elas dedicam 25 hs semanais à casa e à família; eles, 9 hs por semana. 
Há 5,5 milhões de crianças que não foram sequer registradas pelos pais. Isso sem contar as milhares de mães que criam os filhos sozinhas.
Reivindicamos salários iguais e maior participação dos homens no cuidado com a casa e os filhos, que, afinal, são tanto deles quanto nossos.Portanto, os cuidados diários com as crianças e a responsabilidade pela sua educação devem ser atribuições de ambos.

4) Por fim, é importante lembrar que não existe uma categoria hegemônica chamada “mulheres”. Somos muitas, e somos diferentes, com demandas distintas.
É preciso sempre levar em conta a classe social, a raça, a orientação sexual e outros fatores quando discutimos direitos das mulheres. 
Mas se é verdade que somos várias e diversas, também é fato que juntas somos mais fortes. E que ainda há muito trabalho a fazer.



*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O desamparo das mulheres com zika


Todo mundo já ouviu dizer que o vírus zika causa microcefalia em fetos de mulheres infectadas. O que pouca gente sabe é que o comprometimento neurológico desses bebês é muito mais grave do que o das pessoas com microcefalia de origem genética. É tão mais grave que muitos médicos evitam o termo “microcefalia” e já falam em síndrome neurológica causada pelo zika, cujas limitações físicas ainda estão sendo estudadas.

O Zika virus é transmitido pelo Aedes aegypti. Disso já sabemos. Também sabemos que o mosquito se reproduz em água parada, principalmente em regiões em que o saneamento básico e o abastecimento de água são precários, o que leva a população local a armazenar água. Resultado: por enquanto, a imensa maioria das grávidas que contraíram o vírus da zika é de mulheres pobres e moradoras da região nordeste do país.


São mulheres muitas vezes jovens, com mais de um filho para criar, sem assistência médica decente, em alguns casos abandonadas pelos parceiros e que agora vivem aterrorizadas diante da possibilidade de ter um filho com sérias limitações físicas e intelectuais. Ninguém as preparou para essa situação em que agora se encontram. Desamparadas, não sabem o que pensar, a quem procurar, o que fazer.

Algumas mulheres com condições financeiras melhores, frente à perspectiva de ter um filho com tantas limitações ainda desconhecidas, têm optado pelo aborto clandestino. Antes de crucificá-las, é preciso buscar compreendê-las.

Diante de um quadro tão grave e sem precedentes, um grupo de profissionais e ativistas está redigindo uma ação ao STF, que se divide basicamente em dois braços, segundo a antropóloga Débora Diniz, uma das idealizadoras da ação:

1) Acesso ao exame de testagem para o Zika virus a todas as gestantes das regiões endêmicas. Em caso de resultado positivo, a gestante deverá ter acesso a todas as informações a respeito da doença e dos riscos a que está sujeita. Após esse momento, terá a oportunidade de escolher entre interromper a gestação ou dar seguimento à gravidez.

2) No primeiro caso, ela poderá ter acesso ao programa de Aborto Legal, já previsto em casos de anencefalia e estupro, por exemplo. Caso ela decida seguir com a gestação, contará com políticas sociais amplas de proteção à maternidade e à infância. Mãe e criança deverão receber assistência que vise a melhorar a qualidade de vida de ambas.

Não se trata de impor o aborto a crianças com malformações, mas de conceder o direito individual de escolha a mulheres que sofrem tortura psicológica causada pela ameaça de ter um filho com uma síndrome tão grave.

Estamos vivendo uma epidemia sem precedentes. Não é hora de discussões acaloradas e passionais, mas de olharmos com empatia e respeito para mulheres já abandonadas pelo Estado e oferecer-lhes acesso a informações e amparo em suas escolhas, quaisquer que sejam elas.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Desigualdade social e gravidez na adolescência


As meninas que engravidam na adolescência são, na maioria dos casos, pobres e têm menos escolaridade, segundo dados do IBGE.

O número de meninas adolescentes com filhos diminuiu na última década. Mesmo assim, continua alto. Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais 2015, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no último dia 4/12.

Em 2004, de cada mil mulheres de 15 a 19 anos, 78,8 tinham ao menos um filho, o que significava 18,4% da taxa de fecundidade total. Em 2014, esse número caiu para 60,5, representando 17,4% da taxa de fecundidade total. Portanto, de cada cinco partos, quase um é realizado em uma mãe adolescente.

Apesar da queda, o número de adolescentes com filhos no Brasil ainda é bem maior do que na Europa (16,2 por mil meninas) e nos EUA (28,3 por mil), mas próximo do nível observado na América Latina e Caribe (66,5 por mil) e mais baixo que o da África (98,5 por mil).

Entre as jovens dessa faixa etária que não tinham filhos em 2014, 40,4% residiam na região Sudeste e 56,3% se declaravam pretas ou pardas. A média de anos de estudo era de 8,9 anos; 73,7% ainda estudavam ; e 14,7% não estudavam nem trabalhavam.

Das meninas que tinham ao menos um filho, 35,8% moravam no Nordeste e 69% se declaravam pretas ou pardas. A média de escolaridade era de 7,7 anos (85% não completaram o ensino médio); somente 20,1 ainda estudavam; 59,7% não estudavam nem trabalhavam; e 92,5% cuidavam dos afazeres domésticos por uma média de 27,1 horas semanais.

A taxa de adolescentes com filhos mostra uma faceta conhecida dos brasileiros: a desigualdade social. Os dados revelam que a maioria das mães adolescentes tem poucos anos de escolaridade, é negra e vive nas regiões menos economicamente desenvolvidas do país.

São vários os fatores que levam as meninas a engravidar em uma fase da vida em que deveriam se preocupar com os estudos e em aproveitar a juventude. Muitas têm conhecimento acerca dos métodos contraceptivos, mas ignoram como utilizá-los corretamente. Assim, acabam usando o anticoncepcional de forma errada, o que torna sua eficácia reduzida.

Há regiões em que o acesso a esses métodos é precário. Nem todo posto de saúde oferece contraceptivos, entre eles a pílula do dia seguinte. Com acesso limitado, menos informações e a dificuldade comum às meninas muito novas em aderir a métodos que exigem regularidade de uso, a contracepção, muitas vezes, falha.

Essas adolescentes também têm baixa perspectiva em relação à escolaridade e à futura inserção no mercado de trabalho. Com isso, o papel social que lhes sobra é o de mãe.

Como fazer para essas adolescentes não terem filhos tão cedo e, com isso, traçarem um caminho que as afaste completamente da escola e de uma vida profissional com expectativas melhores?

Nossa sociedade conhece a resposta, embora não nos empenhemos em aplicá-la da mesma forma que fazemos com as meninas das classes mais favorecidas.

Em primeiro lugar, oferecemos às meninas mais ricas uma educação de melhor qualidade, que lhes permite criar expectativas em relação ao futuro. Assim, sonhos e planos como viajar, entrar em uma faculdade, conhecer outras culturas e pessoas, aprender novas habilidades e montar a própria casa antecedem o desejo da maternidade.

Quando essas meninas entram em idade fértil, conversamos com elas sobre sexo e as levamos ao ginecologista, que passa a acompanhá-las e orientá-las na escolha do melhor método anticoncepcional, a que certamente terão acesso.

Se os métodos por acaso falharem, pagamos-lhes o aborto em clínicas onde elas podem contar com médicos que lhes garantam segurança. Para as mulheres de classe social mais alta, a criminalização do aborto pode ser resolvida com dinheiro.

Elas não se sentem socialmente pressionadas a engravidar; suas amigas não têm filhos e a elas estão destinados vários papéis sociais que não os de mãe.

Com um ou mais filhos nos braços, as meninas de classes sociais mais baixas que mal saíram da infância não conseguem dar seguimento aos estudos, tampouco melhorar as condições de vida da família. Acabam destinadas ao serviço doméstico, sem que essa tenha sido necessariamente sua escolha.

Para as mulheres mais ricas, a maternidade é, na maioria das vezes, uma escolha e não um destino do qual não se pode fugir. Por que aceitamos condenar as mais pobres a uma realidade que evitamos para nossas filhas?

Todos deveriam ter direito de exercer sua sexualidade e decidir quando e quantos filhos desejam ter, e contar com o acesso a métodos que lhe assegurassem esse direito.

Uma sociedade que nega a garantia dos direitos reprodutivos a todas as mulheres em idade fértil, sem exceção, deveria no mínimo envergonhar-se.


*Texto originalmente publicado no site drauziovarella.com.br

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Eduardo Cunha e sua luta contra os direitos

O deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ) é um homem incansável. Sua luta contra os direitos daqueles que ele considera indignos beira a obsessão. A mais nova iniciativa do peemedebista se chama PL 5069/2013, e está prevista para ser votada hoje, 22/9, na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, já com as emendas do deputado Evandro Gussi (PV/SP).

O projeto, em suma, dificulta o atendimento e altera os direitos já garantidos às vitimas de estupro. Como? Assim:

1) Atualmente, o aborto é permitido por lei em casos de estupro, entre outras situações. O PL de Cunha prevê a criminalização da facilitação ou instigação do aborto, com penas maiores para agentes de saúde. O projeto não faz ressalvas explícitas às ocorrências de estupro, o que abre brecha para que profissionais, com medo de punições, não orientem ou atendam as vitimas nos casos em que o aborto é permitido por lei. Essa “omissão” dos casos de estupro certamente não foi um descuido dos deputados, mas antes algo muito bem pensado.

2) Hoje se entende por violência sexual “qualquer forma de atividade sexual não consentida”. Pelo projeto de lei, só serão consideradas vítimas de violência sexual aqueles que puderem comprovar a agressão por meio do exame de corpo de delito, caso contrário não receberão atendimento especializado. Os deputados ainda retomam, no projeto, a definição de violência sexual constante do Código Penal de 1940, em que, para ser considerada vítima desse tipo de violência, é preciso haver ”dano físico ou psicológico”. Ora, sabemos que se nem todo ato de violência sexual deixa sequelas físicas aparentes, o que dizer então dos danos psicológicos, que são ainda mais suscetíveis à contestação?

3) No momento, toda a rede SUS é obrigada a fornecer atendimento imediato às vítimas de violência sexual. Esse atendimento compreende, entre outras medidas, tratamento das lesões, amparo médico, psicológico e social, profilaxia da gravidez (pílula do dia seguinte) e informação de serviços sanitários disponíveis. Pelo PL, além de ser necessária a comprovação da violência sexual antes do atendimento, os serviços não serão mais obrigados a fornecer a pílula do dia seguinte nem informar a vitima sobre seus direitos, que incluem acesso aos serviços de aborto legal, caso esse seja seu desejo. (Em tempo: a ciência já demonstrou que a pílula do dia seguinte não é abortiva, ela impede a ovulação ou, quando esta já ocorreu, a formação do endométrio gravídico, camada que recobre o útero para receber o óvulo. Duvido muito que os nobres deputados desconheçam esse fato.)

Muito bem. Na prática, estamos dizendo à vitima de estupro que não acreditamos nela, que ela deve se virar para comprovar que sofreu violência, caso contrario não receberá o acolhimento devido. Caso ela passe pelo constrangimento de ter de provar que é vítima e consiga atendimento, ela não terá garantido o acesso à pílula do dia seguinte nem ao serviço de aborto legal.

Não sei você, mas eu pensaria duas vezes antes de procurar ajuda, caso fosse vitima de estupro. Já que eu não poderia impedir a violência sexual sofrida, pelo menos evitaria me submeter à violência que essa sociedade hipócrita me reservaria ao me negar um atendimento digno e especializado.



Não sei se o projeto vai ser aprovado, mas tenho certeza de que os deputados não se darão por vencidos. Portanto, nobres deputados, já que lhes xingar de nada adiantaria, peço ao menos que respeitem as mulheres, que constituem mais de 50% da população brasileira, e não mexam em direitos já constituídos. Procurem fazer algo mais útil, como, por exemplo, ir atrás de um terreno para capinar.

*Texto originalmente publicado na página "Quebrando o Tabu"

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O tabu do aborto


Hoje foi divulgada a notícia de que o Papa Francisco vai dar permissão para todos os padres perdoarem as mulheres que fizerem aborto e buscarem clemência. Atualmente, a Igreja Católica excomunga automaticamente todas as mulheres que passam pelo procedimento.

Atitude louvável, a do Papa. Ele tenta, aqui, fazer aquilo que o Brasil se recusa: olhar para os milhões de mulheres que, todos os anos, passam por um aborto provocado não como criminosas, mas como seres humanos que merecem cuidado.

Na verdade, a Igreja não está em condições de agir de modo diferente, se formos considerar os séculos de opressão exercida contra as mulheres. Mesmo assim, melhor essa atitude do Papa do que a anterior.

Nunca conheci ninguém que fosse favorável ao aborto, que achasse que a decisão de interromper uma gravidez fosse fácil ou bacana. É uma solução extrema. Mesmo assim, as mulheres abortam. E o fazem por motivos variados e independentemente do que achamos. Segundo o IAG (Instituto Alan Guttmacher), entidade americana que estuda a questão do aborto no mundo, cerca de 1 milhão de mulheres abortam todos os anos no Brasil.

É muita gente. A criminalização do aborto não faz com que as mulheres não abortem; faz apenas com que corram risco de vida (uma mulher morre a cada dois dias no país devido a complicações de aborto inseguro, segundo a OMS).

Sugiro, aqui, que façamos um exercício e nos coloquemos por um minuto no lugar dessas mulheres.

Por descuido ou acaso, você engravidou, mas não deseja ou não pode prosseguir com a gravidez. Você não tem recursos financeiros, não tem parceiro fixo, acha que ainda não tem idade suficiente para arcar com um filho, não importa o motivo que a levou a não desejar a gravidez, você não quer ou não pode seguir adiante.

O que fazer? A quem procurar? Como o aborto é crime, você será considerada criminosa se buscar um hospital ou serviço de saúde para pedir ajuda.

Você então vai atrás de informações por conta própria, e nesse processo tudo pode acontecer. Sem orientação de um especialista, que você não sabe onde encontrar e talvez nem tenha dinheiro para pagar, você reza para não morrer.

Sei que muitos vão dizer: “Então por que fez sexo, se não pode arcar com as consequências?”. Bom, então deveríamos tratar desse modo quem pega sífilis, gonorreia, HPV e outras doenças sexualmente transmissíveis. Afinal, contrair uma DST é um risco que todos que fazem sexo correm, mas apenas uma minoria, creio, deseja que as pessoas não tenham direito a um tratamento médico decente.

No entanto, condenamos milhares de mulheres aos riscos que um aborto inseguro implica. Não lhe oferecemos nenhuma alternativa, nenhum tratamento, nenhum amparo. Será que agiríamos assim se fossem os homens que engravidassem?

A verdade é que, assim como contrair uma DST, engravidar é um risco que quem faz sexo corre. E da mesma forma que uma pessoa não deve ser punida e esquecida porque contraiu uma doença, seja qual for, uma mulher que não deseja a gravidez também não deve ser abandonada à própria sorte.

A ideia de que as mulheres devem ser castigadas porque fazem sexo por prazer é tão antiga que é difícil acreditar que ainda nos deixemos levar por ela. Pior, que estruturemos nossa sociedade e nossos valores com base nela.

Por isso, gostaria de dizer ao Papa que nós, mulheres, não necessitamos de perdão. Precisamos e merecemos um Estado que ofereça serviço médico e garanta acesso à saúde e aos direitos reprodutivos. Em suma, merecemos respeito, cuidado e dignidade.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A quem curte pornografia de revanche

Prezado rapaz que expõe vídeos eróticos de parceiras sem sua permissão:

Hoje eu quero lhe contar uma coisa que talvez você não saiba: muita gente faz sexo. Muita mesmo. Não todo mundo, mas muita gente. E várias pessoas fazem sexo com mulheres, porque se sentem atraídos por elas, acham gostoso. Assim como você.

A diferença entre essas pessoas e você é que elas curtem e guardam para si e a parceira o momento que viveram. Você não. Você achou, seja lá por que motivo, que aquela moça com quem compartilhou momentos de prazer, intimidade, sorrisos e confissões deve se envergonhar do que fez. E você vai ser o responsável por isso. Porque você é foda. Você pode.

Sim, você vai trair a confiança que ela depositou em você ao se deixar filmar. Mas tudo bem, porque o importante é você fazê-la sentir vergonha de ter tido prazer ao seu lado. O que vale é você afirmar seu poder. Afinal, onde já se viu uma mulher ousar sentir prazer e ainda por cima demonstrar?

Sua “sorte” é que você vai encontrar outros idiotas como você, que vão lhe dar razão, vão compartilhar seu vídeo, na esperança de difamar uma moça que, muitas vezes, nem conhecem. Eles vão rir, vão tecer comentários maldosos, vão se divertir com o fato de uma mulher ter feito exatamente o que eles fazem, vão adorar afirmar o poder sobre as mulheres.

Essa moça que há minutos você levou para cama não merece a menor consideração. Você não se importa com o que ela sente, com o que dizem dela, com o impacto que sua atitude eventualmente causará em sua vida. Porque, para você, ela é lixo. Se você a julgasse gente, certamente não agiria assim, não é?

Quer saber? Eu também me envergonharia, se fosse ela. Não por ter feito sexo, mas por ter feito sexo com você. Porque você é um merda.

Só posso torcer para que ela levante a cabeça e siga adiante, e seja mais feliz em suas escolhas. Existe muita gente bacana no mundo. Ninguém tem que se sentir envergonhado por fazer sexo, nem por ter se deixado filmar ou seja lá o que tenha decidido fazer em comum acordo com o parceiro na cama. O babaca é você, ela é vítima.

Não vou dizer para as meninas não se deixarem filmar, para duvidarem do parceiro porque existem idiotas como você. Não se faz sexo sem confiança, sem entrega, e ensinar as meninas a se policiar, a desconfiar, a controlar seus desejos é privá-las do que há mais bonito no sexo: a cumplicidade.

Mas, calma, não quero apenas criticá-lo, também tenho uma sugestão a lhe fazer. Por que você não deixa o sexo compartilhado com quem gosta de gente, com que respeita os seres humanos e vai se filmar sozinho pelado em frente ao espelho? Bem macho, bem garanhão. Afinal, você é foda.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Iscas

Outro dia, na página deste blog no FB, disse que as baladas que cobram meia entrada de mulheres o fazem não apenas porque elas consomem menos, mas porque usam as mulheres como ‘iscas’ para atrair homens. Muita gente não entendeu, então resolvi explicar.

Há alguns anos fui a uma dessas festas em que mulheres não pagavam consumação até a meia-noite. Deparei-me com um cenário deprimente: dezenas de meninas, algumas certamente menores de idade ingerindo toda a bebida alcóolica que conseguissem. Logo depois, os homens começaram a chegar e encontraram várias meninas bêbadas e alegres. Não devem ter achado ruim, certo?

O hábito de embriagar a mulher para conseguir dela vantagens sexuais é antigo. O cinema eternizou a célebre cena em que o cavalheiro encontra a moça desconhecida e solitária em um bar e resolve lhe pagar uma bebida.

Oferecer bebidas ou preços mais convidativos e entradas gratuitas, selecionar moças bonitas em filas de boates ou criar ‘promoções’ para atrair mulheres são apenas uma variação desse costume que as festas universitárias e as baladas atuais aprimoraram. Não são raros os casos de estupros e abusos nessas festas, muitas vezes praticados pelos próprios colegas da vítima embriagada (aqui faço um breve parênteses apenas para que não haja dúvida: álcool não é desculpa para estupro, esteja a vítima ou o agressor bêbado).

As mulheres são ensinadas a se respeitar, a se dar ‘valor’, o que significa, em outras palavras, ter contato íntimo apenas com quem conhecem bem a ponto de estabelecerem um relacionamento. Toda mulher que resolve agir de modo diferente tem de quebrar uma série de regras e conceitos pré-concebidos que lhe foram empurrados durante anos. Acredite, não é algo fácil. O álcool, muitas vezes, funciona como um empurrão extra para a “liberdade”.

O problema é que essa liberdade é falsa. A verdadeira liberdade sexual implica saber impor suas vontades, arcar com as responsabilidades de seus atos, ter autoconfiança e autoestima elevadas. Poucas mulheres podem se dar ao luxo de se considerar de fato livres nesse sentido. A maioria não o é.

O fato de você ser ou conhecer uma mulher que entre na balada sabendo direitinho o quê e como quer não significa que seja assim para todas. As mulheres ainda são sexualmente oprimidas, e a liberdade de fato é privilégio de poucas, muito poucas. Portanto, é hora de parar de olhar para o próprio umbigo e entender de uma vez por todas que a sociedade vende uma falsa ideia de que as mulheres são livres para usufruir dos benefícios, inclusive financeiros, dessa pretensa liberdade.

Não se iludam: para exercer a própria sexualidade sem preconceitos e com segurança é preciso muito trabalho, muito questionamento, muito autoconhecimento, muita segurança. Caso contrário ela é falsa. E a pretensa liberdade é, muitas vezes, pior e mais perigosa que sua ausência.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 24 de junho de 2015

As mulheres e o HIV


Logo que surgiu, no início da década de 1980, aids foi chamada de “peste gay” porque as pessoas pensavam, erroneamente, que a doença atingia apenas os homens homossexuais. Foi necessário pouco tempo para os cientistas demonstrarem que a doença era causada por um vírus, o HIV, e que sua transmissão se dava por via sexual e por sangue contaminado.

Como sabemos, as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) não se restringem a apenas um dos sexos, e logo começaram a surgir casos de mulheres infectadas pelo HIV. Hoje, segundo o Boletim Epidemiológico HIV-Aids, divulgado em 2015 pelo Ministério da Saúde, em 2013 a razão de sexo nas faixas etárias de 20 a 29 anos e de 30 a 39 anos foi de 2,2 e 1,9 casos em homens para cada caso em mulheres, respectivamente, com tendência significativa de aumento nos últimos dez anos.

Há algumas razões para o aumento do número de mulheres infectadas. O primeiro diz respeito à anatomia dos órgãos sexuais femininos, pois a vagina oferece uma superfície de contato mais extensa que o pênis. Além disso, sua mucosa é mais suscetível a feridas e fissuras que podem servir de porta de entrada para o HIV.

O fato de o vírus ser inicialmente associado aos homossexuais fez com que muitos heterossexuais, homens e mulheres, dispensassem o uso de preservativos, acreditando ser imunes ao vírus.

A submissão às regras estabelecidas pelos homens, que frequentemente rejeitam a camisinha, é mais uma razão para a alta prevalência do HIV no sexo feminino. Como boa parte das mulheres é financeira e emocionalmente dependente dos parceiros, não causa estranheza saber que muitas aceitam o sexo sem proteção.

A infidelidade masculina, socialmente aceita, também colabora para que muitas mulheres em relacionamentos estáveis estejam mais vulneráveis à contaminação.

Outro motivo é que a geração mais jovem, que não viveu sob o medo da epidemia de aids, em uma época em que não havia tratamento eficaz contra a doença, deixou de usar preservativo. Segundo o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), divulgado no ano passado, 40% das mulheres não usam camisinha.

A mulher que vive com o HIV enfrenta muitos problemas. Em geral, depende financeiramente do homem que a infectou ou precisa ganhar a vida para sustentar os filhos. O medo do desemprego e do desamparo, entre outros temores, é responsável pelo alto número de distúrbios de ansiedade e depressão entre as soropositivas.

As mulheres mais jovens, que ainda não têm filhos, precisam enfrentar o dilema da maternidade. Apesar de a transmissão vertical (de mãe para filho) hoje ser baixa, graças ao tratamento realizado durante a gravidez, muitas abrem mão da maternidade por medo de contaminar os filhos ou de não viver tempo suficiente para criá-los.

Quando encontram um novo parceiro, as moças solteiras se deparam com uma difícil escolha: revelar logo que têm o vírus ou contar mais tarde, caso se envolvam?

Na primeira hipótese é quase certo que o parceiro se afastará, e ela ainda correrá o risco de que ele revele a outras pessoas seu segredo. No segundo caso, será que o parceiro saberá compreendê-la ou se sentirá enganado?

Na dúvida, muitas optam pela abstinência sexual. E, com medo do preconceito, omitem de todos o fato de ter o vírus. Tomam medicamentos escondidas, mentem para ir ao médico, não revelam nem mesmo aos mais íntimos sua condição.

A ignorância dos que ainda associam o HIV e a aids à promiscuidade também faz com que as mulheres infectadas se escondam, com medo de ser julgadas.

Isolada e solitária, a mulher soropositiva vive a face mais cruel do HIV-aids: o preconceito.

*Texto originalmente publicado no www.drauziovarella.com.br

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Sexo feminino


Uma das formas mais eficazes de a sociedade exercer poder sobre as mulheres tem sido, historicamente, o controle da sua sexualidade. São inúmeras as formas de restringir a sexualidade feminina, que vão desde a valorização da virgindade até a criminalização do aborto.

Alguns seres humanos, contudo, teimam em não seguir regras, mesmo quando impostas à exaustão. Graças a certas mulheres que não aceitam rótulos e julgamentos, somos obrigados a engolir um tipo cada vez mais comum: a mulher que gosta de sexo e não tem medo nem vergonha de dizer isso.

Essas mulheres têm a ousadia de escolher com quem, como e quando querem transar; sentem-se donas do próprio corpo, não se submetem aos desejos masculinos apenas para agradar aos homens e não se comportam como alguns acham que devem. E, pior, afirmam suas preferências para quem quiser ouvir, como sempre fizeram os homens. Talvez por isso assustem tanta gente.

Bem que tentamos desencorajá-las difamando-as, espalhando vídeos na internet, tentando dizer que elas não valem nada e que não se valorizam, mas elas teimam em ser quem são, fazer o quê?

Seu comportamento ofende nossa moral que, apesar de hipócrita, até bem pouco tempo atrás funcionava como modo de coerção. De repente, foi como se elas parassem de se importar. Nem o rótulo de ninfomaníaca, questionado por muitos psicólogos e psiquiatras por ser considerado mais uma forma de controle social do que um desejo sexual hiperativo parece constrangê-las.

Sim, existem mulheres que curtem sexo. E muito. Algumas, ainda, não se limitam a práticas convencionais ou a apenas um parceiro, pecado mortal numa sociedade monogâmica como a nossa, tudo sem o menor constrangimento.

Não sei que jeito a sociedade dará, mas vai ter de lidar com elas. Será obrigada a entender que, para um número cada vez maior de mulheres, viver à sombra do desejo, da expectativa e do julgamento masculinos não faz mais nenhum sentido.

Aceitem.

*Texto originalmente publicado na página "Quebrando o Tabu"

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Aborto legal


A criminalização do aborto divide o mundo em dois: a maioria dos países do hemisfério norte não trata o aborto como crime, e tem leis mais liberais em relação ao procedimento. Por outro lado, as leis de quase todos os países do hemisfério sul criminalizam o aborto na imensa maioria dos casos.

As leis restritivas, além de não impedirem que as mulheres abortem, tornam o aborto inseguro. Não à toa, 98% das 43 mil mortes anuais por abortamento no mundo ocorrem nos países em que o procedimento é considerado crime e é, por consequência, realizado de modo inseguro, sem as condições necessárias.

No Brasil, o aborto é permitido pelo Código Penal em duas situações: em caso de estupro e quando há risco de morte para a gestante. A partir de 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) deixou de considerar crime o abortamento em casos de anomalias fetais graves e incompatíveis com a vida extrauterina.

O médico Jefferson Drezett, diretor do Núcleo de Violência Sexual e Abortamento Legal do Hospital Pérola Byington (SP), apresentou um panorama do aborto legal, realizado nos casos previstos em lei, no seminário “A mídia e o aborto”, organizado pelo Grupo de Estudos sobre o Aborto (GEA) em março deste ano (assista ao vídeo aqui). O cenário não é nada animador.

Em 2013, foi sancionada a lei que obriga os hospitais do SUS a prestar atendimento emergencial, integral e interdisciplinar às vítimas de violência sexual. Apesar de não mencionar a palavra ‘aborto’, a lei garante os cuidados das lesões físicas, o amparo social e psicológico, a profilaxia de doenças sexualmente transmissíveis e da gravidez, entre outros direitos. Em último caso, a mulher pode interromper a gravidez forçada.

A realidade, no entanto, não é bem assim. Nem todos os hospitais garantem acesso a serviços de saúde voltados às vítimas de estupro, e poucos oferecem o abortamento seguro, realizado em condições de higiene e segurança e por equipe de saúde, nos casos previstos na lei.

Prova disso é que o hospital Pérola Byington, referência em atendimento de casos de violência sexual no país, já atendeu, desde sua fundação em 1994, mais de 35 mil casos de estupro, grande parte encaminhada de outros municípios, que não têm condições de atender as vítimas.

Em momento em que tramita na Câmara dos Deputados projeto de lei que visa a descriminalização do aborto, como garantir o abortamento legal e seguro nos casos previstos pela lei se os serviços de saúde do país sequer estão preparados para atender as vítimas de violência sexual?

Esse parece ser o desafio da maioria dos serviços de saúde e dos governos, que falham ao deixar a vítima de crime tão bárbaro à mercê da própria sorte.


*Texto originalmente publicado no www.drauziovarella.com.br

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Quem são as mulheres que abortam?

Desde que defendi abertamente a legalização do aborto, muitas mulheres, conhecidas ou não, passaram a me procurar para pedir indicação de médicos que realizem o procedimento com o mínimo de segurança. Não falo de duas, seis mulheres, mas de dezenas.

Sei que fenômeno semelhante ocorre com outras mulheres que, como eu, são favoráveis à descriminalização do aborto.

Fico pensando o que leva uma pessoa a procurar uma desconhecida para ajudá-la em momento tão delicado da vida, quem é ela, como veio parar nessa situação.

Segundo dados apresentados no seminário “Mídia e Aborto”, organizado em abril deste ano pelo Grupo de Estudos sobre o Aborto (GEA), uma em cada cinco mulheres de 40 anos já abortou. 

O perfil das mulheres que me procuram é variado: são moças casadas, solteiras, com parceiro fixo ou não, muito jovens, mais velhas, ricas, pobres, com ou sem filhos, brancas, negras, religiosas ou não. Em comum, todas trazem consigo o medo e uma vulnerabilidade extrema. A imensa maioria está sozinha, quando muito conta com o apoio de uma amiga ou do parceiro.

Portanto, com base nos dados e na minha experiência e na de outras pessoas que ousam falar sobre aborto, afirmo sem a menor dúvida que essas mulheres não são as outras, como gostamos de imaginar, mas, ao contrário, somos todas nós.

Elas poderiam confiar em um médico que as amparasse e acolhesse, que lhes desse informações seguras sobre como proceder diante de uma gravidez indesejada, que lhes apresentasse todos os caminhos possíveis e, eventualmente, as acompanhasse durante e depois do procedimento, indicando-lhes como agir no futuro para que não engravidassem sem querer novamente.

Todavia, na falta de opção, recorrem a amigas e desconhecidas em quem, imaginam, podem confiar e encontrar o mínimo de apoio.

Sugiro, aqui, que façamos um exercício e nos coloquemos por um minuto apenas no lugar dessas mulheres.

Por descuido ou acaso, você engravidou, mas não deseja ou não pode seguir com a gravidez. Você não tem recursos, não tem parceiro fixo, acha que ainda não tem idade suficiente para arcar com um filho, não importa o motivo que a levou a não desejar a gravidez, você não quer ou não pode seguir adiante.

O que fazer? A quem procurar? Como o aborto é crime, você será considerada criminosa se buscar um hospital ou serviço de saúde para pedir ajuda.

A você, então, só resta procurar amigos e familiares. Nem todas, porém, podem contar com uma rede de apoio, por motivos variados.

Sozinha, você vai atrás de informações por conta própria, e nesse processo tudo pode acontecer. Sem orientação de um especialista, que você não sabe onde encontrar e talvez nem tenha dinheiro para pagar, você reza para não morrer.

Sei que muitos vão dizer: “então por que fez sexo se não pode arcar com as consequências?”. Bom, então deveríamos tratar desse modo quem contrai sífilis, gonorreia, HPV e outras doenças sexualmente transmissíveis. Afinal, contrair uma DST é um risco que todos que fazem sexo correm, mas apenas uma minoria, creio, deseja que as pessoas não tenham direito a um tratamento médico decente.

No entanto, condenamos milhares de mulheres aos riscos que um aborto inseguro implica. Não lhe oferecemos nenhuma alternativa, nenhum tratamento, nenhum amparo.

A verdade é que, assim como contrair uma DST, engravidar é um risco de quem faz sexo. E da mesma forma que uma pessoa não deve ser punida e esquecida porque contraiu uma doença, seja ela qual for, uma mulher que não deseja a gravidez também não deve ser abandonada à própria sorte.

A ideia de que as mulheres devem ser castigadas porque fazem sexo por prazer é tão antiga que é difícil acreditar que ainda nos deixemos levar por ela. Pior, que estruturemos nossa sociedade e nossos valores com base nela.

O Estado que não oferece serviço médico a mulheres que engravidam sem desejar não cumpre seu papel, pois é sua obrigação garantir acesso à saúde e aos direitos reprodutivos da mulher. E se o Estado falha, falhamos todos ao aceitar sua omissão.