Mostrando postagens com marcador violência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador violência. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Europa e Brasil têm altos índices de violência de gênero


A violência contra a mulher não é fenômeno novo, tampouco exclusividade brasileira. Pesquisa realizada pela European Union Agency for Fundamental Rights com 42 mil mulheres dos 28 países membros da União Europeia e divulgada em 2014 revelou dados alarmantes sobre a violência de gênero (agressões decorrentes de uma relação de poder entre homem e mulher e em geral praticadas por homens próximos à vítima) no continente europeu.

Finlândia e Suécia, países reconhecidos por sua atuação no combate ao machismo e à desigualdade de gênero por meio de medidas educativas e de políticas públicas, apresentaram resultados que impressionam aqueles que imaginam que os países escandinavos são um oásis onde mulheres e homens vivem em harmonia.

Das entrevistadas finlandesas, 47% afirmaram já ter sofrido violência física e/ou sexual a partir dos 15 anos. Na Suécia, o índice chegou a 46% e no Reino Unido e na França, a 44%. Portugal e Espanha apresentaram taxas mais baixas: 24% e 22%, respectivamente. Entre todas as entrevistadas europeias, o índice chegou a 33%.

A pesquisa revelou que 1 em cada 10 europeias já foi submetida a alguma forma de violência sexual, e 1em cada 20 já sofreu estupro. 
Embora boa parte dos países europeus busque enfrentar a desigualdade de gênero, os dados mostram que o problema ainda não foi resolvido na região.

No Brasil, em que pesquisa do Datafolha indicou que 1 em cada 3 mulheres foi vítima de algum tipo de violência em 2016, a situação é ainda mais grave, pois muitas ocorrências sequer são reconhecidas como violência. Basta analisarmos casos divulgados pela mídia recentemente, como o do juiz que considerou que o pai que espancou a filha adolescente com um fio elétrico por ela ter "perdido a virgindade" exerceu seu "direito de correção".

Sempre que mulheres se indignam com episódios como o citado, logo aparecem, grosso modo, dois grupos: um afirmando que os agressores deveriam mofar na cadeia e outro acusando as mulheres de ser "punitivistas".

O primeiro desconhece que a prisão nem sempre é o melhor caminho para lidar com casos de violência de gênero, e que a educação para a igualdade, a prevenção e a adoção de políticas públicas que ajudem a corrigir desigualdades devem ser a prioridade. Mesmo porque, teríamos de criar quantos presídios para encarcerar todos os homens que já cometeram violência contra as mulheres?

O segundo grupo também erra ao não perceber que a maioria de nós quer, acima de tudo, que a violência contra a mulher seja reconhecida como tal, e que a demanda por reconhecimento da violência de gênero não invalida, a meu ver, a discussão acerca de penas e punições e sobre as formas de lidar com ela.

No momento, creio que seja essencial lutar para que a sociedade brasileira, incluindo todas as esferas de poder, considere as agressões contra a mulher como violência. Já seria um bom começo.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Estupros e abusos em transportes privados: empresas também são responsáveis

Qualquer mulher que já tenha ficado sozinha em um carro com um homem desconhecido conhece o medo de se tornar mais uma das inúmeras vítimas de abusos sexuais ou de estupro.

Não à toa, muitas mulheres desenvolvem técnicas para não demonstrar nenhuma simpatia que possa ser entendida como consentimento para uma intimidade forçada, como não tirar os olhos do celular e responder monosilabicamente apenas quando não houver alternativa. Há quem envie a placa do carro para um parente e até quem simule uma conversa com um namorado imaginário no telefone, para se sentir protegida.

No entanto, nenhuma estratégia evitou os incontáveis casos de abuso físico, verbal e sexual e de estupro envolvendo motoristas de transportes privados no mundo todo.  São histórias de assédio durante as corridas, de motoristas que violam os códigos de segurança e mandam mensagens para as usuárias, de violências físicas e sexuais.


A empresa americana Uber é a que mais coleciona ocorrências no mundo. De 2012 a 2015, foram mais de 6 mil denúncias de agressões sexuais contra seus motoristas colaboradores. O ex-presidente da multinacional, Travis Kalanick, renunciou ao cargo em junho deste ano, após acusações de funcionárias acerca do sexismo reinante na empresa.

O machismo (e tudo que ocorre em decorrência dele) é um fenômeno estrutural. Nenhuma mulher está de fato segura em nenhum lugar. Abusos sexuais ocorrem em universidades, escolas, transportes, empresas e até dentro de casa. São praticados por desconhecidos e conhecidos. Por ser um problema que atinge toda a sociedade, todos deveriam se envolver na sua solução.

Embora punir o agressor seja essencial, não é o bastante. É preciso que a sociedade condene veementemente essas formas de abuso, que não as tolere. Para isso, as escolas, as universidades, as empresas, todos devem assumir sua responsabilidade na prevenção de novos casos.

As empresas de transporte privado e as que operam aplicativos, assim como as Prefeituras que concedem alvarás para taxistas não têm feito o suficiente. Afastar o motorista após a denúncia é o mínimo, mas não é tudo. É preciso que se invista em prevenção, em mecanismos para facilitar e apurar as denúncias e, acima de tudo, em políticas firmes e eficazes que desencorajem abusos sexuais.

Assédios, abusos e estupros são um problema de todos nós. No entanto, parece que apenas as mulheres se preocupam em evitá-lo, por meio de estratégias individuais que, por mais que nos esforcemos, não garantem nossa segurança. Não há nada mais injusto e cruel do que deixar o problema em nossas mãos.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Denúncias de abuso e as redes sociais

Têm surgido na internet denúncias e desabafos de mulheres que se sentiram vítimas de relacionamentos abusivos. A reação a isso gerou controvérsia. Minha opinião a respeito:

1) Na nossa sociedade, os homens ainda detêm o poder em muitas esferas: econômica, social, política etc. Não é preciso muito esforço para entender que essa desigualdade se dá também na imensa maioria das relações amorosas heterossexuais, que acabam sendo palco de inúmeros abusos, alguns mais óbvios e violentos, outros mais sutis. Se isso é verdade, também é fato que temos poucos mecanismos para lidar com o problema, principalmente no que diz respeito às violências menos óbvias, que não são passíveis de penalizações legais.

Conheço algumas mulheres que escreveram sobre seus relacionamentos e muitas, muitas outras que viveram e vivem essas relações de poder dentro da esfera íntima. Por acompanhar muitos desses casos e por eu mesma ter vivido algumas situações em que o poder masculino se mostrou mais sutil, mas não menos devastador é que compreendo que cada mulher vítima de situações abusivas lida com isso a seu tempo, da forma que consegue.


Muitas mulheres e meninas estão se amparando nesses relatos, identificando padrões abusivos em seus próprios relacionamentos, encontrando outras mulheres em quem buscar ajuda. Isso é muito importante.

Não me sinto em condições de avaliar a forma como cada mulher lida com a questão e muito menos de dizer se seu relato é ou não legítimo. Não julgá-las é minha opção pessoal.

2) Para mim, o importante é como a sociedade vai lidar com as denúncias. Acho primordial entendermos que o machismo é um problema estrutural e macro e discuti-lo dentro desse contexto.

Vejam, não estou dizendo que perpetuadores de atitudes e comportamentos violentos não devam ser punidos, responsabilizados ou repreendidos, e compreendo que alguns tipos de intimidação de fato funcionam. 

No entanto, demonizar esses homens pode ter efeito contrário:  transformá-los em exceção mesmo sabendo que esses casos não são raros, tampouco isolados.

Portanto, creio que ganharíamos mais discutindo a questão do machismo nas relações íntimas como um problema estrutural que atinge, em graus muito diferentes, é bom salientar, quase todos os casais heterossexuais que conheço. 

3) Machismo é um problema que diz respeito aos homens. É importante que eles discutam masculinidades, que repreendam atitudes machistas em seus amigos e colegas, que entendam de uma vez por todas que são eles que devem mudar e assumir uma postura ativa nesse sentido. Acredito mesmo que boa parte dos homens esteja disposta a mudar e que isso seja possível, mas a mudança não está nas mãos das mulheres, ela não é tarefa nossa. 

4) Por fim, é preciso cuidado com a falsa simetria. Você pode até questionar se é legal ou não esculachar alguém na internet (pessoalmente, prefiro outras formas de atuação), mas isso não é “linchamento”. Comparar as mulheres e meninas que xingam na internet a linchadores é no mínimo injusto.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Mexeu com uma, mexeu com todas

Muito já foi dito sobre a denúncia de assédio contra o ator José Mayer e, neste momento, não sinto que eu possa acrescentar nada de novo ao caso. Por outro lado, impossível não falar sobre um fato escancarado pelo episódio: quase toda mulher já passou por situações parecidas à vivida por Su Tonani. Por isso, aproveito para fazer algumas observações importantes para evitarmos novos casos semelhantes:

1) É preciso quebrar o silêncio. Muita gente, a maioria homens, questionou a forma como a denúncia foi feita e até a veracidade do seu conteúdo. Em um mundo ideal, Su teria sido ouvida pelas instâncias que procurou e o caso não precisaria ter vindo a público da forma que veio. Só que nosso mundo está longe de ser ideal, e expor sua dor e humilhação foi a única alternativa encontrada pela vítima para que seu assédio não caísse no lugar ingrato reservado para a maioria dos casos análogos: o esquecimento. Precisamos, sim, denunciar o assédio e a violência e apoiar as vítimas.

2) Não devemos demonizar os assediadores, nem dizer que eles são exceção. Porque a verdade é que o caso envolvendo José Mayer chamou a atenção justamente por ser comum demais. Por isso, acho perigoso dizer que o ator é bandido ou mau caráter, por exemplo. Ele, na minha opinião, deve ser punido como todo assediador, mas o mais importante é que deixemos claro que o que ocorreu com Su acontece todos os dias, com todas nós, envolvendo homens de todos os níveis sociais, raça, idade e de escolaridade.

3) O apoio que Su recebeu e a mobilização que se seguiu à denúncia devem ocorrer sempre, inclusive e principalmente quando as vítimas forem menos privilegiadas. Sim, Su estava, apesar de tudo, em uma situação privilegiada. Contou com o apoio de amigas que têm espaço na mídia, com colegas de profissão. Quantas mulheres negras e pobres sofrem caladas? Quantas denunciam e têm de enfrentar também a ira de mulheres que apoiam os assediadores por pertencerem ao seu núcleo social?


Leia também: Violência depois da violência

4) Chama a atenção, também, a grande quantidade de homens, incluindo colegas, que saiu em defesa do ator. É desanimador que um caso dessa gravidade encontre amparo. Outros colegas optaram por não se manifestar, o que é compreensível diante da repercussão do caso. Foi a mobilização das mulheres que fez com que o assédio de Su não embrulhasse o peixe do dia seguinte, como ela mesmo colocou em seu relato tão contundente, e isso é muito animador.

5) Por fim, peço aos homens que reflitam sobre o caso. Mesmo quem nunca assediou já se deparou com homens assediadores. Na maioria das vezes, não é fácil se posicionar contrário. Há toda uma estrutura social que protege quem assedia e recrimina quem se opõe. Mas é de extrema importância que os homens repensem suas atitudes e coloquem-se como parte do problema e da solução. Gostaria que em vez de dizerem “ah, sou diferente, nunca fiz isso!”, vocês pensassem “como posso fazer para ajudar a evitar novos casos de assédio e de violência contra a mulher?” Essa mudança de postura é essencial para que a sociedade avance no que diz respeito à equidade de gênero.

Os desdobramentos do caso (o afastamento do ator de suas atividades diárias, a carta que ele foi quase que obrigado a escrever) foram muito importantes. Históricos, arriscaria dizer. E eu, que não costumo ser muito otimista, sinto que estamos no caminho certo para a construção de uma sociedade mais justa e menos desigual.

Que o #MexeuComUmaMexeuComTodas perdure.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu" e no site "Casa da Mãe Joanna"

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Violência de gênero nas universidades

Ao contrário do que muitos imaginam, a universidade não é um lugar seguro, pelo menos não para as mulheres. Segundo a pesquisa do Data Popular encomendada pelo Instituto Avon em 2015, 67% das alunas sofreram algum tipo de violência no ambiente universitário, enquanto 28% das entrevistadas foram vítimas de violência sexual (tocar o corpo da vítima sem seu consentimento, cometer estupro quando a vítima está embriagada etc.).

Talvez o dado mais alarmante seja que 27% dos alunos do sexo masculino não consideram violência tentar abusar da mulher quando ela está sob o efeito de álcool.

No artigo “Por que os homens não amam as mulheres?”, publicado no Jornal da USP, a professora de Sociologia e ex-senadora Eva Blay chama a atenção para o fato de que a universidade está inserida na sociedade machista em que vivemos, portanto seria ilusão imaginar que as pessoas agiriam de forma diferente dentro dos muros das universidades.

Leia também: Estupro: a ponta do iceberg


Assim, independentemente do curso, as universidades não podem se isentar de discutir violência de gênero e criar medidas para que seus alunos deixem de reproduzir o machismo que aprenderam lá fora. Afinal, a universidade deve ser um espaço de aprendizado e questionamento, um local que forme não apenas profissionais competentes em suas áreas, mas cidadãos.

Para isso, medidas de combate à violência de todos os tipos, como a humanização dos trotes, devem fazer parte do dia a dia das universidades.

Para que o assédio cometido por alunos, professores e funcionários deixe de ocorrer é preciso estimular as denúncias, criando centros que acolham as vítimas e encaminhem as acusações aos órgãos competentes, e que os responsáveis sejam devidamente punidos não apenas pela Justiça, mas também pela universidade.

No entanto, se a sociedade e a Justiça não fazem sua parte, de nada adiantam as denúncias. Há alguns anos, o estupro cometido por um aluno da USP se tornou um caso emblemático da violência a que as mulheres estão submetidas dentro das universidades.

A vítima relatou ter sido dopada e estuprada ao usar o banheiro que se localizava dentro do dormitório do aluno da Faculdade de Medicina da USP Daniel Tarciso da Silva Cardoso, na Casa do Estudante, no bairro de Pinheiros (SP). Apesar de exames médicos comprovarem a violência sexual, o juiz Klaus Marouelli Arroyo considerou, em 17/02/2017, que não houve o estupro, pois as acusações são inconsistentes e a vítima entrou no quarto de Daniel por “livre e espontânea vontade”, segundo matéria da Ponte Jornalismo.

Daniel, hoje médico formado, mas ainda sem registro para exercer a profissão, responde a mais 6 acusações de estupro em que as vítimas afirmam ter sido dopadas.

Enquanto desmoralizarmos e desacreditarmos as vítimas para proteger homens que usam a violência contra a mulher como modus operandi, os casos de abuso sexual e estupro continuarão existindo. Hoje não há nenhum ambiente de fato seguro para as mulheres.


*Publicado originalmente na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Ni una menos

[TW: estupro]



A imagem da argentina Lucía Pérez não me sai da cabeça. Talvez por eu ter filha e sobrinha adolescentes, quem sabe por eu mesma já ter levado no rosto o sorriso despreocupado e a leveza de quem, aos 16 anos, ainda não conhece o mundo.

Lucía foi sequestrada, obrigada a consumir doses altas de cocaína e maconha, estuprada e morta por empalamento com uma estaca de madeira por dois homens, em Mar del Plata.

Não há adjetivos cruéis o suficiente para qualificar o assassinato. Nenhuma palavra parece dar conta da violência a que a jovem foi submetida. No entanto, o crime não choca apenas pela estranheza, mas pelo motivo oposto. Apesar de bárbaro, ele é incrivelmente banal.


Leia também: A cultura do estupro

Os crimes sexuais na Argentina aumentaram 78% entre 2008 e 2015, segundo o Ministério da Segurança do país, e Mar del Plata é o município argentino com maior número de condenações por exploração sexual.

Movidas pelos altos índices de violência de gênero e pela morte de Lucía, as argentinas convocaram uma paralisação nacional para esta quarta-feira, 19/10. Espera-se uma mobilização nunca vista, uma tentativa de dar um basta à violência contra a mulher.

No Brasil, a situação também é muito grave. Somos o quinto país que mais mata mulheres por motivações de gênero (feminicídio), de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgou que em 2014 houve um estupro notificado a cada 11 minutos. Considerando que apenas 30% a 35% dos estupros são comunicados, é possível estimar que haja um caso de estupro por minuto no país.

Se por um lado o estupro é condenável, por outro a sociedade o tolera e o justifica. Tanto que pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e realizada e divulgada este ano pelo Datafolha revelou que um em cada três brasileiros acredita que a culpa do estupro é da mulher. Existe outra forma mais eficiente de aceitar um crime do que responsabilizar a vítima?

Sim, existe: fazer com que esse mesmo crime esteja intrínseco na cultura do país. O estupro está presente em toda brincadeira entre jovens que riem quando um colega diz que vai “arregaçar” uma mulher na cama, em cada vez que aceitamos a justificativa de que a vítima havia bebido demais, todas as vezes em que permitimos que homens assediem mulheres nas ruas e lhes toquem o corpo sem seu consentimento, sempre que aceitamos que se refiram às mulheres como ornamento disponível ao homem.

É urgente combater a cultura do estupro. Isso só vai ocorrer quando não tolerarmos mais tudo o que vem antes do crime, aquilo que o estimula e o permite.

A pior coisa que podemos fazer por Lucía Pérez é aceitar que o ocorrido com ela foi uma fatalidade, um crime cometido por dois psicopatas. Não foi. E é exatamente por sua trivialidade que devemos nos mobilizar.

  

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Relativização da violência contra a mulher

“Eu queria primeiro deixá-la ciente do quanto ela prejudicou minha carreira. [...] Presenciei tudo e sei o quanto estávamos em clima de descontração. Errei por ter feito as brincadeiras que fiz com uma pessoa que não conheço”, disse MC Biel à RedeTV! sobre o episódio de assédio a uma jornalista protagonizado por ele, em maio deste ano.

Além de tentar inverter o jogo fazendo-se de vítima, Biel relativiza a violência do assédio, dizendo que fez uma “brincadeira”. Se assim fosse, a moça que o denunciou, além de ser mal-intencionada por tentar acabar com a carreira do rapaz, ainda não teria senso de humor.

Há quarenta anos, o playboy Doca Street comovia o país ao chorar diante das câmeras de TV depois de assassinar a companheira Ângela Diniz com quatro tiros (três no rosto). A família e os amigos de Ângela tiveram de assistir a um julgamento que transformava a vítima em uma mulher manipuladora, infiel, violenta, sexualmente incontrolável e provocante que cavou a própria sepultura.

Doca passou pouco mais de 5 anos na cadeia, retomou a vida, casou-se, teve filhos, escreveu um livro sobre o caso e ainda disse em entrevista à revista IstoÉ: “A Ângela até nem sofreu, porque morreu. Quem fica, sofre”. É de dar pena, não?

Quarenta anos é bastante tempo, e muita coisa mudou de lá para cá. No entanto, as mulheres ainda continuam sendo culpabilizadas pela violência que sofrem.

A facilidade com que assassinos, estupradores, assediadores e espancadores se dizem arrependidos e tentam comover a sociedade ao justificar suas atitudes é chocante. E eles fazem isso por um único motivo: funciona.

Não conheço nenhum outro crime em que se dizer arrependido e colocar a responsabilidade na vítima sejam uma tática de defesa tão bem sucedida. Ninguém diz a uma vítima de assalto que ela provocou o crime, muito menos um ladrão tem o descaramento de afirmar que a denúncia de suas vítimas atrapalhou sua vida.

Por que, então, aceitamos que homens justifiquem seus crimes quando as vítimas são mulheres? Por que buscamos respostas na atitude e no comportamento de quem sofreu a agressão para explicar a violência do agressor? Até quando vamos dar atenção e espaço na mídia e na sociedade em geral para homens destilarem seu “arrependimento” em busca de redenção?

Dizer que nada justifica a violência é chover no molhado. Contudo, isso não se aplica quando a vítima é mulher.

Como veem, 40 anos não é tanto tempo assim.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A desculpa do crime passional

Há cinco dias, Cristiane de Souza Andrade foi assassinada a facadas na frente da filha de 7 anos, quando caminhava pela rua próxima à sua casa, no Rio de Janeiro. A cena da menina pedindo ajuda, coberta pelo sangue da mãe, ganhou os noticiários do Brasil e do mundo.

O que parecia uma tentativa de assalto malsucedida ganhou contornos de “crime passional”. Rojelson Santos Baptista, assassino confesso, contou que mantivera um relacionamento amoroso com a vítima, que se recusara a continuar a relação, motivando o crime. A família de Cristiane, no entanto, nega veementemente a versão do criminoso, afirmando que ela vivia com outro homem havia alguns anos. Apesar disso, a Policia Civil, mesmo sem divulgar nenhuma prova concreta, assumiu a versão dada por Rojelson como verdadeira.

Infelizmente, quem poderia esclarecer os fatos, a própria Cristiane, não tem como se defender da acusação de trair o namorado e ainda abandonar o amante inconformado, mas não me surpreenderia se o assassino estivesse inventando a história. Na verdade, ele tem todos os motivos para fazê-lo.

Acusado anteriormente de tentar matar uma ex-companheira também a facadas, Rojelson foi inocentado da acusação. Pôde desfrutar da liberdade até matar Cristiane diante da filha pequena. Ele não é exceção. Agredir uma mulher não costuma levar quase ninguém à cadeia: apenas 7% dos agressores domésticos são presos ou aguardam julgamento no Brasil (Mapa da Violência 2015).

Os crimes ditos passionais, que hoje são considerados feminicídios por lei e nada têm a ver com paixão e sim com misoginia e machismo, sempre foram tolerados pela sociedade. Tanto é que a cada uma hora e meia uma mulher é assassinada no Brasil apenas por ser mulher (Ipea, 2012). São 472 mulheres mortas por mês, a maioria por parentes, parceiros ou ex-parceiros (mais de 50%, segundo o Mapa da Viol.) que já agrediram ou ameaçaram a vítima anteriormente.

Rojelson tem todas as razões do mundo para difamar e tentar responsabilizar Cristiane de alguma forma, embora nada justifique seu assassinato. Sabe que terá mais chances de sensibilizar a Justiça posando de mal-amado e ferido emocionalmente por uma mulher que ousou lhe dizer não, pois já confirmou que a tática costuma dar certo. Para a polícia e demais autoridades, também é mais fácil acreditar na história do assassino, afinal o Rio de Janeiro sediará as Olimpíadas em breve e ninguém precisa de mais uma história de latrocínio para escancarar a falta de segurança pública da cidade, não é mesmo?

O fato é que poucos se importam com as milhares de Cristianes que morrem todos os anos no Brasil, muito menos com o que dizem delas. Culpar as vítimas, principalmente quando são mulheres, é o que fazemos de melhor.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Violência depois da violência

Os casos recentes de violência contra a mulher com maior repercussão na mídia deixam claro para quem quiser ver que as vítimas sofreram pelo menos duas violências: a do ato criminoso em si e a praticada pela sociedade quando de sua denúncia.

Ao contrário da forma como tratamos a maioria dos delitos e crimes, somos coniventes com a violência contra a mulher e impiedosos com as vítimas. Embora ninguém questione o caráter e o comportamento de quem tem o carro roubado, por exemplo, a vida das mulheres vítimas de agressões é sempre devastada. Perguntas sobre sua vida sexual, seu comportamento, suas roupas, hábitos e práticas são comuns, independentemente do crime sofrido. A falha no atendimento adequado dessas mulheres também é recorrente.

Por outro lado, aceitamos qualquer desculpa esfarrapada que justifique as violências: a saia curta, o gênio ruim, o fato de ter bebido demais, o comportamento dito libertino, o jeito pouco incisivo de se comunicar. Qualquer pretexto serve para colocar em dúvida a violência cometida e a reputação de quem a sofreu.

Será que à jornalista que denunciou o assédio do funkeiro Biel não faltaria senso de humor para encarar suas piadinhas? A vítima do estupro coletivo no Rio não teria aceitado fazer sexo com um bando de homens, a maioria desconhecida, em um quarto imundo, por prazer? A mulher do ator Johnny Depp não estaria atrás de fama e dinheiro ao solicitar uma ordem de restrição temporária em razão de violência doméstica?

É claro que toda denúncia deve ser investigada e não podemos sair condenando as pessoas sem provas. Mas me impressiona a facilidade com que duvidamos das vítimas quando se trata de violência de gênero.

Esse tipo de agressão se ampara em dois pilares básicos: a ideia de supremacia masculina e a de inferioridade feminina. Os homens que a cometem deixam claro sua dominação, o poder que exercem sobre as mulheres. E a forma como a sociedade trata as vítimas que ousam denunciar a violência mostra como as mulheres são vistas como inferiores, como seres que, antes e acima de tudo, merecem descrédito.

Pode parecer exagero, mas é exatamente essa a ideia por trás dos casos de violência de gênero, seja ela doméstica ou não. Não à toa, há tanta subnotificação de ocorrências de violência contra a mulher.

Por isso é tão importante tratar a questão de gênero nas escolas, para que as crianças aprendam a condenar a ideia de supremacia masculina. Enquanto evitarmos encarar e combater o machismo de verdade, as mulheres continuarão a sofrer caladas, para evitar outra violência, dessa vez por parte de quem deveria protegê-las: a sociedade e o Estado.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Homens e cultura do estupro

Preciso confessar: sou uma assassina em potencial. Isso significa que, embora eu nunca tenha matado alguém, tenho todas as condições de fazê-lo.

E o que me impede de cometer um assassinato? Muitos fatores. A educação que recebi, totalmente contrária à ideia de tirar a vida de outro semelhante; a coerção da sociedade, que por meio de suas normas simbólicas e manifestas me mostra desde que nasci que matar alguém é crime; a cultura em que vivo; entre outros.

Se as condições fossem diferentes, eu poderia matar. Isso faz de mim uma assassina? Não. Mas eu sei que posso assassinar alguém. O fato de não fazê-lo é uma escolha, embora influenciada pelos motivos citados acima.

Quando as mulheres dizem que os homens são estupradores em potencial é isto que estamos querendo dizer: os homens têm potencial de estuprar. Nem todos o farão, claro, mas eles têm um papel importante como possíveis atores.

Todo mundo se chocou com o estupro coletivo da menina no Rio. Realmente, foi um crime horrendo. Mas me pergunto: quantas dessas pessoas não se surpreenderiam se soubessem que seus pais, irmãos, filhos, maridos, primos e amigos mexem com mulheres na rua, passam a mão em meninas nas baladas, tratam mal as parceiras, não respeitam as colegas de trabalho e riem de piadas machistas? Talvez muitos dos homens que se horrorizaram com o caso façam eles mesmos essas coisas, sem nem relacioná-las com estupro.

Mas essas atitudes têm, sim, a ver com estupro, que é considerado crime, mas acontece a todo instante. Nem sempre são casos tão extremos como o do Rio, aliás, a maioria é cometida por colegas, maridos, namorados, parentes, vizinhos, homens que fazem parte do dia a dia da vítima.

Estupro é apenas umas das manifestações de uma violência contra a mulher que é estrutural e contínua, que acontece todos os dias, com todas as mulheres.

Então, assim como achamos que é nossa função como sociedade coibir assassinatos e educar nossos filhos para que não sejam assassinos, devemos assumir a responsabilidade de criar uma sociedade livre de violência de gênero e mais igualitária. Uma sociedade em que as mulheres sejam valorizadas, em que seu consentimento seja respeitado e sua voz, ouvida.

Isso é tarefa de todos nós. Ouçam as mulheres.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Estupro: a ponta do iceberg

Em 2014, uma adolescente de 16 anos foi encontrada por familiares em seu quarto segurando o revólver do pai, um PM da cidade de Olímpia, no interior de SP. Ao perceber que a filha ia cometer suicídio, os pais insistiram com a menina para que revelasse o motivo do desespero. Ela, então, confessou: seu avô materno, Moacir Rodrigues Mendonça, a havia levado a um hotel e estuprado dias antes.

Diante da denúncia, Mendonça, então delegado da Polícia Civil, foi preso e assim permaneceu até semana passada, quando o juiz Eduardo Luiz Costa concluiu que não havia “prova segura” para a condenação. Para o juiz, apesar de o réu confessar ter feito sexo com a neta, o estupro não ficou suficientemente comprovado, “não bastando a simples relutância, as negativas tímidas ou a resistência inerte” da vítima para confirmar o crime.

Muito bem. Sempre que falamos em cultura de estupro aparecem pessoas lembrando que o estupro não é crime tolerado, sendo, inclusive, punido com pena de morte nas cadeias brasileiras. É verdade, poucos afirmam em sã consciência que o estupro não é crime. O problema está na definição do que é estupro.

É mais fácil aceitar que uma mulher dominada por um desconhecido, sob a mira de um revólver, seja obrigada a ceder, ou que uma criança de dois anos violentada pelo tio não possa ser considerada responsável pelo ato (acreditem, mesmo nessas circunstâncias haverá quem questione o crime). Contudo, as situações que fogem da cena clássica de estupro, construída no imaginário da sociedade, são sempre postas em dúvida.

Senão, vejamos: o juiz achou mais razoável acreditar que houve uma conspiração envolvendo a ex-esposa, avó da menina, a mãe da jovem, filha do agressor, e a própria neta para incriminá-lo. Julgou aceitável supor que uma menina de 16 anos tenha aceitado ir ao hotel com o avô para fazer sexo; que a tentativa de suicídio fora forjada; que toda a situação de exposição pela qual a menina passou na escola não tenha significado nada.

Isto é cultura do estupro: a aceitação de que homens podem fazer sexo com quem e quando quiserem, independentemente do consentimento da mulher; a desacreditação e culpabilização da vítima, que se sente desencorajada e com medo de denunciar; o estímulo da sexualização precoce de crianças e adolescentes; a falsa noção de que quem comete estupro é sempre doente ou marginal; a ideia de que consentimento não é importante para que haja uma relação sexual, o que justificaria tantos casos de estupro em que a vítima está desacordada.

Enquanto houver cultura de estupro, não me venham dizer que estupro é visto como crime hediondo. Não é, pelo menos nem todo estupro. Faz parte do dia a dia de grande parte das mulheres, que vivem com medo de ser vítima, e só começaremos a mudar essa realidade quando assumirmos que existe, sim, cultura do estupro.

P.S. A propósito, a jovem, ao saber que o avô está solto, teve uma crise nervosa, vomitou inúmeras vezes e precisou ser hospitalizada. Mas talvez isso também faça parte da encenação que as mulheres da família montaram para incriminar o nobre delegado, certo?



*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"
-------------------------------------------------------------

NOTA: 


No dia seguinte à publicação deste texto, o Brasil assistiu estarrecido à notícia do estupro coletivo de uma menina de 17 anos. Trinta e três rapazes doparam, estupraram, filmaram e divulgaram o vídeo do crime, em meio a comentários misóginos e machistas.

Não houve quem não se emocionasse e indignasse. Realmente, não há como ficar indiferente a um caso como esse.

No entanto, eu me pergunto: quantas pessoas que se chocaram não se surpreenderiam se soubessem que seus irmãos, pais, primos, filhos e amigos íntimos passam a mão nas meninas nas baladas, "transam" com garotas totalmente bêbadas, mexem com mulheres na rua, não deixam as amigas terminarem as frases, tratam mal as namoradas e colegas, ignoram o que as mulheres pensam e dizem?


Estupro é a ponta do iceberg, o ápice de uma violência contra a mulher que é muito maior, estruturada, diária e contínua, cometida por homens comuns, que fazem parte do nosso círculo social.

Somos uma sociedade que estimula e tolera a violência contra a mulher. É disso que temos de falar.

‪

quarta-feira, 23 de março de 2016

Patologização da violência contra a mulher


Louise Ribeiro, 20 anos, foi assassinada pelo colega Vinícius Neres, 19 anos, porque, segundo o autor do crime, a moça se recusou a namorá-lo. O crime ocorreu dentro da Universidade de Brasília (UnB), onde ambos estudavam, há alguns dias.

Esse tipo de homicídio, em que o homem mata em razão do gênero, tem nome: feminicídio. É importante dar nome aos bois porque em geral esse crime é acompanhado de uma tentativa torpe de justificá-lo e desqualificá-lo. A vítima de feminicídio, não importa o que digam, morre única e exclusivamente por ter nascido mulher.

Muito se comentou sobre a frieza de Vinícius ao relatar o crime. Realmente, o cara é um poço de insensibilidade que impressiona até o mais cruel dos assassinos. Mas a impassibilidade do criminoso também revela algo importante: nossa sociedade nunca considerou, historicamente, atitude muito grave matar uma mulher.

O Brasil está em quinto lugar entre os 83 países membros da ONU em número de homicídios de mulheres. Segundo a ong Action Aid, todos os dias 119 mulheres são assassinadas no mundo todo por parceiros, ex-parceiros e parentes próximos.

Venho há tempos chamando a atenção para o perigo da patologização dos perpetuadores de atos violentos contra a mulher. É claro que existem psicopatas e pessoas com outros transtornos psiquiátricos, mas eles nem de longe são a maioria dos homens que cometem violência de gênero. Os casos de estupro, violência doméstica e feminicídio, como o de Louise, são frequentes porque são tolerados socialmente e cometidos por homens comuns.

Não à toa, recebem nomes quase bonitos como “crime passional”, “atos de ciúme” e “sexo não consentido”. Sempre que falo isso, surgem homens dizendo: “Alto lá! Você está afirmando que todos os homens são assassinos ou estupradores em potencial?” Não, não estou. “Então quer dizer que os homens que matam e estupram não são todos doentes mentais?” Sim, é isso mesmo, a maioria não sofre de nenhuma patologia.

Conhecer o problema é o primeiro passo para combatê-lo. Não adianta nos escondermos atrás de doenças psiquiátricas porque é difícil aceitar que a violência contra a mulher é oriunda de uma sociedade machista e patriarcal, que sempre defendeu que as mulheres são subalternas aos homens. É essa ideia de propriedade e inferioridade que torna possível a alguns homens disporem da vida das mulheres como lhes aprouver.

Louise não morreu porque foi imprudente, irresponsável ou pouco cautelosa. Morreu porque era mulher e teve a ‘ousadia’ de dizer não a um rapaz jovem como ela, que desfrutava dos mesmos espaços, tinha os mesmos amigos, frequentava os mesmos lugares. Nossa sociedade falhou ao protegê-la dele.

 Quantas meninas e mulheres ainda vamos deixar morrer?

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 8 de março de 2016

O que querem as mulheres

Todo 8 de março é a mesma coisa: canso de ouvir frases como: “Mas dia da mulher é todo dia”, “Se tem um dia da mulher, por que não tem um dia do homem?”, ou ainda “Parabéns pelo seu dia”. É preciso entender o sentido da data. Esse não é um dia de celebração, mas de exigir direitos. Tentar transformá-lo em uma data comemorativa como o Dia dos Namorados e encher as mulheres de flores e bombons é esvaziar seu significado e destitui-lo de importância.

O Dia Internacional da Mulher serve para lembrar as desigualdades de gênero, tão comuns no Brasil e no mundo e para aproveitar espaços e discutir essas disparidades. A data foi reconhecida pela ONU na década de 1970, mas avançamos pouco desde então, no que diz respeito a direitos.

Embora nem todas as mulheres concordem sempre, algumas reivindicações são compartilhadas por quase todas as mulheres que desejam viver em uma sociedade mais igualitária:

1) FIM DAS VIOLÊNCIAS
A cada 1:30 hora, uma mulher morre de causa violenta no país (IPEA). Pelo menos 4 mulheres foram assassinadas por dia pelos parceiros ou ex-parceiros em 2013 (Mapa da Violência 2015). Em 2014, 405 mulheres sofreram violência por dia e precisaram de atendimento no SUS (MdV), sendo que quase 68% dos casos foram cometidos por parentes imediatos ou parceiros/ex-parceiros.

Os dados servem para ilustrar aquilo que já sabemos: as mulheres são as principais vítimas de violência doméstica. Além desse tipo de agressão, somos assediadas nas ruas, no trabalho, nos meios de transporte, em locais públicos e privados. Foram 47 mil ocorrências de estupro denunciadas (atenção para isso, pois sabemos que esse é um dos crimes em que há mais subnotificações) apenas em 2014 (Fórum Bras. de Segurança Pública).

Ainda estamos engatinhando n
a prevenção e na punição dos casos de violência contra a mulher e no acolhimento e tratamento, quando é o caso, das vítimas. Hoje o sentimento mais comum quando se conversa com as mulheres sobre violência é um só: medo.

2) GARANTIA DOS DIREITOS SEXUAIS E REPRODUTIVOS
Queremos direitos que nos permitam viver a própria sexualidade com prazer e liberdade. Para isso, precisamos de educação sexual nas escolas, acesso a métodos contraceptivos, orientação sexual e cuidados com a saúde em postos, unidades de saúde e hospitais.
Queremos ter direito ao planejamento familiar, que inclui a descriminalização do aborto. A mulher que decide abortar precisa ser amparada. 
Uma em cada cinco mulheres já abortou (PNA). É correto deixar milhares de mulheres abandonadas à própria sorte? Até quando vamos ignorar o fato de que são as mulheres pobres que morrem em procedimentos mal feitos?

3) EQUIDADE SALARIAL E DIVISÃO DO TRABALHO DOMÉSTICO
Mulheres ganham 68% do salário dos homens (Fórum Econômico Mundial); 90% das mulheres realizam tarefas domésticas, que incluem o cuidado com os filhos, enquanto 40% dos homens desempenham as mesmas atividades (Unicamp).Elas dedicam 25 hs semanais à casa e à família; eles, 9 hs por semana. 
Há 5,5 milhões de crianças que não foram sequer registradas pelos pais. Isso sem contar as milhares de mães que criam os filhos sozinhas.
Reivindicamos salários iguais e maior participação dos homens no cuidado com a casa e os filhos, que, afinal, são tanto deles quanto nossos.Portanto, os cuidados diários com as crianças e a responsabilidade pela sua educação devem ser atribuições de ambos.

4) Por fim, é importante lembrar que não existe uma categoria hegemônica chamada “mulheres”. Somos muitas, e somos diferentes, com demandas distintas.
É preciso sempre levar em conta a classe social, a raça, a orientação sexual e outros fatores quando discutimos direitos das mulheres. 
Mas se é verdade que somos várias e diversas, também é fato que juntas somos mais fortes. E que ainda há muito trabalho a fazer.



*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Estuprador nem sempre é doente

Na semana passada, chamou a atenção da mídia o caso do pai que detinha a guarda e estuprava sistematicamente as cinco filhas de 5 a 14 anos, no Amapá. Ao ser preso, ele disse: “Era rapidinho, não fazia nada não, era rapidinho”.

É difícil encontrar quem não se choque com essa história. Uma passada rápida pelos comentários dos mais importantes sites de notícia revela pelo menos duas posturas que chamam a atenção.

A maioria das pessoas quer que o pai estuprador sofra muito na cadeia, antes de morrer lenta e cruelmente. Chamam-no de “monstro”, “pedófilo” e “doente mental”. Outro grupo pergunta, raivoso, onde estava a mãe das crianças, que deixou a guarda de filhas mulheres com um homem, sem lembrar que esse “homem” é o pai das meninas, que devia protegê-las e tinha tanta responsabilidade no cuidado com as filhas quanto a mãe.

Essas duas atitudes falam muito sobre a cultura do estupro no Brasil. É comum chamarmos os estupradores de “monstros” e “doentes”. Se isso fosse verdade, então teríamos mais de 47 mil homens com problemas mentais apenas no ano de 2014, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isso sem contar os casos que não são denunciados.

Sabemos que os estupradores não são, em sua maioria, doentes mentais ou pedófilos, muito menos monstros. Se fossem, os estupros seriam raros, e o pai em questão não trataria as acusações com tanta naturalidade, como fazem muitos estupradores.

Obviamente, isso não significa dizer que qualquer homem se tornará estuprador, mas que parte deles considera o estupro algo aceitável. Muitos homens sentem prazer em dominar uma mulher, em submetê-la ao pavor, em vê-la imobilizada, sem ação.

A outra postura vista nos comentários, a que tenta responsabilizar a mãe das meninas, é nada mais, nada menos que a boa e velha tática de colocar a culpa na mulher. Como é muito pesado culpar crianças (acreditam, alguns o fizeram em comentários de embrulhar o estômago), acusam a mãe, que não estava presente (onde já se viu?).

Está mais do que na hora de reconhecermos que vivemos em uma cultura em que o estupro é condenável na teoria, mas incentivado e tolerado no dia a dia. Transformar os estupradores em monstros ou colocar a culpa na mulher não vai mudar essa realidade.

A imensa maioria dos estupradores não é composta por doentes mentais, muitos são inclusive conhecidos das vítimas. Devem ser presos, julgados e punidos de acordo com a lei. Eles são os culpados, eles são os criminosos. Não são monstros, não são doentes mentais: são homens comuns.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O namorado não deixa

Ninguém tem dúvida de que levar um tapa na cara ou um soco no estômago é sinal de violência. É possível discordar se ela é merecida ou não, mas todo mundo sabe que esses são atos violentos.

No entanto, atitudes como dizer para a namorada vestir uma roupa mais comportada, usar menos maquiagem, cortar contato com determinado colega ou ainda deixar de se comportar de certa maneira são atos que muitos consideram sinal de “ciúme saudável”, como se isso existisse. Uma demonstração de amor, enfim.

Esse tipo de comportamento tem nome, e não é nada bonito: chama-se violência psicológica. Pode ser praticada por homens e mulheres, a diferença é que os primeiros costumam fugir de namoradas controladoras ou pelo menos dão um jeito de driblar a vigilância com mentiras e subterfúgios bem conhecidos de ambos os sexos. Já as mulheres... bem, muitas a aceitam como parte natural dos relacionamentos amorosos, porque aprenderam, com a ideia de amor romântico que lhes enfiaram na cabeça a vida toda, que controle é sinal de afeição, de cuidado, de querer bem.

Segundo pesquisa divulgada no ano passado pelo Instituto Avon e Data Popular e realizada com jovens de 14 a 24 anos, 56% das meninas já tiveram um parceiro que vasculhou seu celular atrás de supostas mensagens amorosas; 40% tiveram um companheiro que tentou controlá-la por meio de telefonemas; 37% praticaram relações sexuais sem preservativo por insistência dos parceiros; 33% já foram impedidas de usar determinada roupa pelos namorados.

É muito grave que meninas tão jovens já iniciem a vida amorosa e sexual assim, considerando normal demonstrações de controle e violência psicológica. Uma relação abusiva pode deixar marcas para sempre, além de estabelecer um padrão de relacionamento do qual é difícil escapar mais tarde.

Ninguém pode dizer ao outro como se vestir, aonde ir, de quem ser amigo, como se comportar. Ciúme não é saudável, é um sentimento que traz consequências horríveis para quem o sente e devastadoras para sua vítima, por isso deve ser combatido.

Isso não tem nada a ver com monogamia ou com a ausência dela. Cada um estabelece o tipo de relação que quiser, desde que encontre pessoas que concordem com seus termos. Tem a ver com respeito, com liberdade, com aceitação. Se você não gosta do jeito do seu parceiro ou parceira, afaste-se, mas não tente domá-lo(a). Simples.

Aprendemos que as pessoas podem e devem ser controladas. Isso, contudo, não é verdade. Como disse a filósofa Simone de Beauvoir, “querer-se livre é também querer livre os outros”. Ninguém é propriedade de ninguém, nem filhos, muito menos parceiros afetivos. Qualquer atitude que vise a controlar o outro é, sim, sinal de violência.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

domingo, 22 de novembro de 2015

Feminicídio


Em fevereiro de 2015, causou comoção na internet o caso do empresário que agrediu as cadelas da noiva, no Rio de Janeiro. O vídeo em que ele aparece maltratando os animais, filmado e divulgado pela dona dos bichos, foi rapidamente compartilhado por milhares de usuários das redes sociais, mobilizando, inclusive, a OAB.

Pouco mais de três meses depois, o mesmo empresário agrediu violentamente a agora ex-noiva, na porta de uma festa. Bastante machucada, a moça divulgou fotos e denunciou o rapaz à polícia.

Apesar dos dois fatos envolverem as mesmas vítimas, a violência contra a mulher não gerou um décimo da comoção da agressão aos animais.Embora triste, o fato não surpreende.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a cada uma hora e meia uma mulher morre por causas violentas no Brasil. São 472 por mês; 5.664 por ano. É bastante gente.

São mulheres estupradas, espancadas, agredidas e vítimas de maus-tratos que resultam em óbito, na maioria das vezes cometidos por companheiros ou ex-companheiros. Esse tipo de crime, em que pessoas morrem apenas por serem mulheres, tem nome: feminicídio.

Nem todos conseguem ver a relação entre o assassinato de mulheres por questões de gênero e machismo, mas ela existe. Afinal, permitimos o controle da vida e da sexualidade da mulher, adotando costumes e normas que vão desde a valorização da virgindade até a criminalização do aborto. Dizemos como as mulheres devem se vestir, que aparência devem ter, como devem se comportar.

Obviamente nem todos se sentem no direito de matar por causa disso.Mas todas as vezes em que a sociedade aceita abusos nas ruas, que maridos digam com quem a mulher deve se relacionar e pais criem filhas e filhos sob regras diferentes estamos passando uma mensagem muito clara: os homens têm poder sobre as mulheres.E se isso é verdade, acabamos aceitando, também, que alguns extrapolem e acabem“exagerando” na dose e cometendo abusos e crimes.

Sem querer parecer simplista nem desprezar outras variáveis que contribuem para essa violência, como racismo, baixa escolaridade, entre outras, é primordial uma mudança cultural no sentido de não tolerarmos mais que as mulheres assumam lugar secundário na sociedade. Mas isso leva tempo, e muitas não podem esperar.

Nesse sentido, medidas como a sanção da lei que define como crime hediondo a morte violenta por razões de gênero, a Lei do Feminicídio, contribuem para que se pense duas vezes antes de tirar a vida de uma mulher. É lamentável, mas precisamos de uma lei para isso.


*Texto originalmente publicado no site "Sobre nossa visão distorcida"

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Violência contra a mulher: negras são as principais vítimas


Até bem pouco tempo atrás, não havia nenhuma lei específica que protegesse as mulheres de agressões e crimes. Isso começou a mudar em 2006, quando entrou em vigor a Lei 13.340, conhecida como Lei Maria da Penha, que visa punir os casos de violência contra a mulher. Ainda mais recentemente, em março de 2015, foi promulgada a Lei 13.104 que passou a considerar crime hediondo os homicídios cometidos “por razões de condição de sexo feminino”, ou seja, os assassinatos perpetrados contra uma pessoa simplesmente por ela ter nascido mulher.

Mas será que essas leis de fato bastam para proteger as mulheres e evitar que ocorram novos casos de violência e homicídios?

De acordo com dados do recém-lançado Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil, não. De autoria do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, o mapa conta com o apoio de várias instituições, entre elas ONU – Mulheres e OPAS/OMS (Organização Pan-Americana da Saúde – Organização Mundial da Saúde). Vamos a alguns números:

  • Só em 2013, foram assassinadas 4.762 mulheres no território nacional, o que coloca o Brasil em quinto lugar entre os países com mais casos de homicídio feminino do mundo. Ficamos atrás apenas de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia; nossa taxa de homicídio feminino é 48 vezes maior que a do Reino Unido e 24 vezes maior que a da Irlanda ou da Dinamarca;

  • A taxa de homicídio entre as mulheres brancas caiu de 3,6 por 100 mil em 2003 para 3,2 em 2013, uma redução de 11,9%. Já entre as mulheres negras, houve um aumento de 4,5 para 5,4 por 100 mil no mesmo período, um crescimento de 19,5%;
  • Em 2013, foram assassinadas 66,7% mais negras do que brancas;
  • No que se refere aos feminicídios, há poucos dados disponíveis. No entanto, sabe-se que dos 4.762 homicídios realizados em 2013 cujas vitimas eram mulheres, 50,3% foram cometidos por familiares, o que dá uma média de 7 homicídios por dia;
  • Parceiros ou ex-parceiros foram autores de 33,2% desses assassinatos, ou seja, 4 vítimas por dia;
  • Dos adultos que procuraram o SUS em 2014 por intercorrências causadas por violência (doméstica, sexual e/ou outras), 71,3 por 10 mil eram mulheres, enquanto 28,6 por 10 mil eram homens. Entre os adolescentes atendidos, essa proporção foi ainda maior: 65,1 por 10 mil mulheres ante 34,9 por 10 mil homens;
  • Nesse ano, 405 mulheres sofreram violência por dia e precisaram ser atendidas pelo SUS;
  • No conjunto de todas as idades, 67,2% das agressões contra mulheres foram cometidas por parentes imediatos ou parceiros e ex-parceiros.



Esses e outros dados do mapa nos revelam aquilo que estudiosos das questões de gênero já sabem: a violência contra a mulher não é homogênea, distribui-se de forma não igualitária entre regiões, idades e raças.

Alguns estados, como Roraima e Espírito Santo, apresentam taxas muito mais elevadas do que outros. Os municípios com índices mais altos de assassinato de mulheres são os de pequeno porte, mais espalhados pelo interior do país.

É verdade que os homens são a maioria das vitimas de homicídio no Brasil. No entanto, a violência sofrida pelas mulheres assume uma peculiaridade macabra: é praticada na imensa maioria das vezes dentro de casa, em um ambiente que lhes deveria oferecer segurança, por parentes ou parceiros e ex-parceiros.

Com esses dados, podemos afirmar que as principais vítimas de feminicídios no Brasil têm rosto, e ele é negro e jovem. Seus algozes também são conhecidos, tanto pelas próprias mulheres quanto pela sociedade.

Se sabemos quem são as vítimas e os agressores, por que não conseguimos impedir que novos crimes ocorram? A resposta é simples, porém incômoda: porque achamos normal e, portanto, aceitável que homens disponham da vida e do corpo das mulheres como desejam. Não consideramos, apesar das leis, crime grave um marido agredir a esposa ou um pai bater na própria filha. Afinal, não costumamos dizer, por exemplo, “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”?

A violência contra a mulher é uma violação grave aos direitos humanos. Gera custos com saúde e despesas legais perfeitamente evitáveis, desestrutura famílias, traz consequências terríveis para quem a vivencia direta e indiretamente.

Há vários aspectos culturais que explicam a violência de gênero, que está enraizada na desigualdade estrutural que há entre homens e mulheres. Para evitá-la, é preciso que haja políticas eficientes para as mulheres, em especial as negras e pobres, e a aplicação das leis vigentes.

Supõe-se que menos de 7% dos homens que cometem violência grave contra a mulher sejam condenados. Cientes da impunidade e da omissão da sociedade, eles continuam a circular por aí, como se não fossem os criminosos que são.

*Texto originalmente publicado no site drauziovarella.com.br

domingo, 12 de outubro de 2014

Estupro: o álcool não é desculpa

Quem bebe demais fica com o julgamento comprometido e mais exposto a acidentes e comportamentos violentos. No caso das mulheres, além de lidar com a própria vulnerabilidade, elas têm de se preocupar com os homens, muitos deles conhecidos, a seu redor.

De acordo com o 2o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), divulgado este ano, o risco de estupro aumenta 3,6 vezes entre mulheres que exageram na bebida. Por que são tão comuns, no Brasil e no resto do mundo, casos de abuso sexual contra mulheres alcoolizadas?
As teorias para justificar o abuso são muitas: o homem estava sem condições de discernir entre o certo e o errado, a menina não conseguiu deixar claro que não queria a relação ou mudou de ideia.

No entanto, o estupro nessas condições esconde uma verdade: apesar de o álcool ser uma droga legalizada e de a sociedade permitir e até incentivar o consumo de bebida alcoólica, punimos a mulher que ousa beber.

Apesar do grande número de atendimentos a vítimas de estupro (só o Ambulatório de Violência Sexual do Hospital Pérola Byington, em São Paulo, atende cerca de 15 vítimas de abuso sexual por dia), sabemos que as mulheres não costumam denunciar seus estupradores.

Quando o estupro envolve álcool, então, a vítima tem muito mais dificuldade em fazer a denúncia, pois se sente culpada por não ter tido o comportamento que se esperava dela. Em casos que se tornam públicos, amigos e familiares também acusam a vítima, como se ela pudesse ser culpada por não ter conseguido se defender.

Toleramos o estupro nessas condições, afinal a mulher se expôs, não se opôs; estava, portanto, disponível.

O ato sexual deve implicar o consenso das partes envolvidas. Não importa se  bebeu demais, só a mulher pode dispor de seu corpo. Uma pessoa que tenha bebido além da conta não tem condições de dar ou não seu consentimento.

É preciso que fique claro: o álcool não é desculpa para a violência sexual. Fazer sexo com mulher embriagada é considerado, segundo a lei, estupro de vulnerável, um crime, portanto, que precisa ser denunciado. E seus autores, punidos.

•Texto originalmente publicado no site www.drauziovarella.com.br